Artesanado de Palha de milho, da cidade de Redenção da Serra. Artesã Giselda. Fotografia de Reinaldo Meneguim

Danças

“Dança é a arte que se despe de implementos para se exprimir.
É unicamente o corpo que se dá ao movimento rítmico.”
( Alceu M. de Araújo)

Ao lado das danças da moda que se popularizam, são consumidas e substituídas no tempo estabelecido pela mídia e de uma grande gama de expressões estéticas, existem as expressões folclóricas/ populares, dança por espírito lúdico, socializante, extravasamento de alegria, comemoração de vitórias, celebração de fatos.

De natureza socializante e executadas por espírito lúdico, extravasamento de alegria, comemoração de vitórias, celebração de fatos, continuam a animar as festas de casamento ou simples encontros sociais, agregando jovens e velhos.

São expressões ligadas intimamente à vida das comunidades, aos seus ciclos festivos, aos seus calendários e acontecimentos. Pertencem ao domínio do coletivo, da participação geral. Não pressupõem assistência/platéia: todos os circunstantes podem nela se envolver se o desejarem. Nelas a música, o canto e o gestual encontram-se perfeitamente interligados, interativos. Transformam-se, atualizam-se, mas fora do ritmo vertiginoso das expressões massivas. Seu aprendizado se dá pela interação. Em que se preserva uma grande dose de espontaneidade, que lhes confere fluidez e flexibilidade.

Danças de pares, enlaçados ou simplesmente de mãos dadas (tchotes, mazurcas, vaneirinhas, caranguejo, palminha e tantas outras) trazidas na bagagem do europeu e aqui assimiladas e transformadas, muitas delas guardando traços das antigas contradanças européias e danças de terreiro (batuques, Jongo, sambas, cocos, …), contribuições dos negros, que conferiram com a inclusão do tronco (nos mais variados movimentos de torção, contração, projeção, pulsação/vibração), das espáduas e da pélvis, maior riqueza às nossas danças.

Por danças folclóricas/populares, estaremos compreendendo:

 Expressões ligadas intimamente à vida das comunidades, aos seus ciclos, aos seus calendários e efemérides;

 Expressões que se apóiam na circularidade – não pressupõem representação, atuação e assistência/platéia. Todos que se inserem de alguma forma na roda (até mesmo os que se sentam à volta, quando realizados em salões) podem se envolver com a dança se desejarem, desde que devidamente adequados às suas peculiaridades. São do domínio do coletivo, da participação geral, da colaboração instintiva.

 Nelas a música, o canto, o gestual encontram-se perfeitamente interligados. Interativos.

 São do domínio da tradicionalidade, isto é, têm uma dinâmica própria, mais lenta. Transformam-se, atualizam-se, mas fora do ritmo vertiginoso das expressões massivas. (Recuperamos o sentido etimológico de tradição – traditio, onis substantivo do verbo tradere que significa entregar, ceder, transmitir, confiar…).
Portanto, seu aprendizado se dá pela interação. “… no seguir do acontecido”, informou, lapidarmente, o agricultor Ciço ao Carlos Rodrigues Brandão.

 Em que se preserva uma grande dose de espontaneidade, que lhes confere fluidez e flexibilidade (ou é delas conseqüência ?).

É bom frisar que as danças folclóricas de um lado, existem como expressões autônomas, e a elas se aplicam as observações que acabamos de fazer. Sua essencialidade formal pode ser resumida na citação de Alceu M. de Araújo (alertando entretanto não se tratar de arte). De outro estão inseridas em formas de expressão mais complexas, sendo, muitas vezes, seu elemento primordial – são os autos, folguedos, folganças, bailados ou danças dramáticas.

Entretanto, a denominação mais difundida e aceita ficou sendo mesmo folguedo.

Entretanto, a função da dança inserida nos folguedos, ainda que elemento constitutivo destes, e por vezes primordial, é essencialmente diferente daquela quando praticada de forma autônoma.

E Roberto Benjamim, como pesquisador intimamente ligado às expressões cênicas, capta bem esta diferença:

Se enquanto autônomas as danças, conservam no geral a circularidade, quando incluídas/partes dos folguedos, apresentam configuração em filas e assimilaram a movimentação espacial/ dinâmica da quadrilha francesa e danças de salão européias, com seus figurados.

Assim também apontou Mário de Andrade:

“A própria coreografia, que era a parte mais interessante do bailado, se vê pelas figurações descritas, que não formam manejos específicos e obrigatórios, mas apenas outras tantas maneiras de mover o grupo, inventadas ad hoc, pelo ensaiador do rancho; e que podem se combinar e desenvolver ao infinito, como as figurações duma Quadrilha”.

Portanto, são folguedos os boi-bumbás, os reisados, os congos e moçambiques nas suas inúmeras variantes, os maracatus, cabocladas e caboclinhos, taieiras e folias de reis, dentre as dezenas que existem Brasil afora. São danças o samba, o batuque, o jongo, o frevo, o carimbó, a mazurca… mais de uma centena de títulos.

Um dado porém é comum a ambas (autônomas ou inseridas em folguedos) – a dificuldade que a sua documentação, o seu registro adequado impõem ao pesquisador.

Já foi por diversas vezes dito que o gestual foi a primeira forma de comunicação do homem. E a dança sua primeira forma de expressão – expressão essencialmente grupal e circular, oblacional, invocativa ou evocativa. O tempo passou e a função desta dança mudou. Melhor dizendo se diversificou. Se enriqueceu.

Hoje os homens dançam por espírito lúdico, socializante, extravasamento de alegria, comemoração de vitórias, celebração de fatos. Dança como expressão estética, arte. Mas continuou a dançar de forma oblacional, ritual, homenageando seus deuses e invocando seus antepassados.

Assim é que se pode observar o universo da dança no Brasil hoje: -Expressões folclóricas/populares; danças da moda que se divulgam através dos veículos de comunicação de massa e se popularizam, são consumidas e substituídas no tempo estabelecido pela mídia; uma grande gama de expressões estéticas com jeito brasileiro de ser ou sintonizadas com estilos internacionais de dança.

Nossas considerações estarão voltadas para as danças folclóricas brasileiras, também denominadas danças populares, bem como para o paralelo com as projeções estéticas das mesmas.

Ao lado destas, autônomas ou inseridas em folguedos, ligadas intimamente à vida e aos calendários das comunidades, podemos apontar a existência dos grupos denominados para-folclóricos e os balés-folclóricos, grupos cênicos que se multiplicaram depois da década de 60. A função dos seus trabalhos e atuações, não se confunde com aquela das danças e folguedos em seus contextos originais.

“São grupos para-folclóricos os organizados nas escolas, clubes sociais e outras associações, com fins educativos, recreativos e de documentação e os grupos profissionais ou semi-profissionais que se organizam especialmente para apresentações para turistas, ou que acompanham shows de conjuntos musicais regionais.” (Roberto Benjamim)

Acrescente-se que, no geral, os grupos para-folclóricos restringem-se à projeção estética de algumas das danças de suas regiões de origem.

Ao lado destes, os Balés Folclóricos (denominação adotada internacionalmente) ou Balés Populares, de estruturas mais complexas, caracterizam-se como grupos de repertório, essencialmente cênicos.

Uns e outros dedicam-se à observação e/ou pesquisa das manifestações folclóricas/originais/rituais, e à sua posterior reelaboração/recriação cênica. Não devem ser confundidos com os grupos folclóricos.

A este tipo de atividade artística convencionou-se chamar aproveitamento, reelaboração, aplicação ou projeção estética de folclore. Mas tais denominações só são facilmente assimiláveis junto aos círculos de pesquisadores e especialistas, sendo no geral recebidas com muita estranheza. Necessitam sempre de muita explicação. Sinal de que não conseguem comunicar. Precisariam ser revistas?

E nestes tempos de globalização permanecemos confiantes como muitos dos que nos antecederam:

“A esta fluidez, esta flexibilidade, esta dinâmica de acrescer, subtrair, incorporar, reinterpretar, próprios das manifestações populares, deve-se ter em conta que um grande número de estudos folclóricos foi realizado a nível de registro de uma observação local, sem qualquer preocupação em estabelecer uma contextualização, sem relacionar com outras manifestações culturais e com a vida social da comunidade, sem análise comparativa com manifestações; sem levar em conta a história da comunidade, a origem da sua população, as migrações, etc.” (p. 36 – Roberto Benjamim)

 

 

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