Artesanado de Palha de milho, da cidade de Redenção da Serra. Artesã Giselda. Fotografia de Reinaldo Meneguim

Tooro Nagashi e Bon Odori

ic_tooroTooro Nagash, Bon Odori, Moti-Tsuki, Sendai Tanabata são alguns dos muitos festivais e rituais, de cunho religioso ou profanos, que pontuam várias regiões do Estado, congregando várias gerações de nipo-descendentes e envolvendo as comunidades circunstantes. Em muitos casos já apresentam tendências ao sincretismo.

Tooro Nagashi e Bon Odori

O desafio do outro…II

Do alto de uma colina vês um vulto na estrada ao longe, e dizes: É um homem.

Quando está mais perto de ti, dizes: Pelo modo de vestir, é alguém de nossa província.

Quando está a meio caminho, dizes: Parece-me ser um homem da minha aldeia.

Quando o encaras, finalmente, vês que é teu irmão. (1)

O Vale do Ribeira é o que ainda resta de significativo em termos de patrimônio natural e cultural em São Paulo. Região de forte apego às práticas de catolicismo popular.

A partir da metade do século XIX, com o desmantelamento da escravatura oficial, o Brasil passou a demandar mão-de-obra estrangeira para as lavouras de café. Assim vieram as primeiras levas de imigrantes, principalmente italianos.

O fluxo imigratório desse segmento étnico intensificou-se a partir da década de 30, e o Vale do Ribeira, de forma especial a região de Registro, Sete Barras e Pariqueraçu, passou a acolher maiores levas de imigrantes japoneses. Foi o marco do encontro de tradições cristãs com outras tantas budistas.

Com a chegada dos imigrantes, a cultura regional foi sendo, paulatinamente, enriquecida. Primeiro com a presença de italianos, alemães, polacos. Por fim, dos primeiros isseis (2).

Nesta edição do Revelando São Paulo, a X no Vale do Ribeira, estamos celebrando o centenário da chegada da primeira leva de imigrantes à região.

I
No mesmo período, segunda metade do Sec. XIX adiante, o Japão passava por grande efervescência social (fim shogunato, inúmeras revoltas camponesas, grande crescimento populacional, com deslocamentos humanos do campo para as cidades, sua economia não conseguindo gerar os empregos necessários, prover o abastecimento interno, território limitado,…).

Diante disto a emigração passou a ser incentivada pelo governo como alternativa à superpopulação. Ao mesmo tempo, no Brasil, com a expansão da cultura do café, esforços eram empreendidos para substituição da mão-de-obra escrava por assalariados.

Assim foi selado um acordo imigratório entre os governos brasileiro e japonês, buscando-se atender as necessidades de ambos os países. (3)

O primeiro passo para viabilizar a constituição das colônias japonesas no estado paulista foi dado em 1912, com um acordo firmado entre o Governo de São Paulo e o Sindicato de Tókio. O compromisso era de doação de vasta extensão de terras na região, além de concessão de recursos financeiros e de isenção de impostos. Em contrapartida, a instituição japonesa deveria introduzir duas mil famílias na região, num período de quatro anos. O contrato foi repassado pelo Sindicato para a Kaigai Kogyo Kabushiki Kaisha (também chamada de Kaiko), que então conduziria toda a colonização japonesa no Vale do Ribeira. (Relatório IPHAN)

Para os isseis que aqui chegaram, o começo da imigração foi um período difícil, espremido entre as duas

Guerras Mundiais, e suas consequências. Além da barreira da língua, aqui se depararam com outras tantas dificuldades (os costumes, a religião, o clima, a alimentação) além do preconceito, grandes barreiras à integração.

Neste período muitas famílias intentaram retornar ao país de origem. Entretanto as barreiras foram sendo transpostas, as raízes em solo brasileiro já haviam sido lançadas, e a maioria resolveu assumir essa sua nova condição.

Durante a Segunda Guerra Mundial para o governo brasileiro (Getúlio) o uso da língua japonesa e

as manifestações culturais nipônicas foram consideradas atitudes criminosas. Com o término da mesma as leis contrárias à imigração japonesas foram canceladas e o fluxo de imigrantes para o Brasil voltou a crescer.

A grande maioria dos imigrantes japoneses eram lavradores, que deixaram uma grande contribuição para a agricultura nacional, introduzindo produtos agrícolas que eram parte de seu cotidiano. Foram responsáveis pela diversificação da produção agrícola brasileira, principalmente em relação às frutas e hortaliças, trazendo o morango, o poncã, o caqui, a abóbora japonesa, o pepino a acelga, só para citar alguns exemplos.

Deu-se a introdução do cultivo do chá, no município de Registro, o plantio de junco para a produção de tatames, esteiras, chinelos e sacolas. O domínio da carpintaria, habilidade de muitos dos japoneses que vieram, aliadas a outras técnicas caiçaras, permearam construções e outros aspectos do dia a dia das comunidades nipo/brasileiras surgentes.

II
Hoje, quem, mesmo que de passagem, tiver contato com os cemitérios da região de Registro, Sete Barras e Pariquera -Açu, ao Sul de São Paulo, entrará em contato com um encadeamento de símbolos que o deixará intrigado, senão estonteado, por algum tempo. Túmulos com cruzes e inscrições de orações, em ideogramas japoneses, ao lado de outros somente com símbolos budistas, junto a tantos outros com imagens de santos católicos, nos mesmos espaços em que são queimados hossenko (4) Os mais atentos sacarão de imediato uma pergunta: que quer significar isto tudo?

E, em decorrência, outra indagação poderá ocorrer: Quando e como tudo isto começou?

Os primeiros imigrantes (Isseis), quase todos praticantes do budismo, passaram a enterrar seus mortos nos cemitérios cristãos. Os sistemas de símbolos de ambas as tradições começaram a ser justapostos.

Pela tradição cristã, os túmulos ostentavam uma só cruz, e, quando nicho, um único, não importando o número de mortos neles inumados. Pela tradição budista, para cada pessoa falecida prepara-se ihai (5) uma lâmina de madeira (na forma aproximada de uma pena de aproximadamente meio metro), com uma oração inscrita em ideogramas. Assim, cada túmulo, de formato simples, passa a ostentar uma destas para cada pessoa inumada.

A partir do contato das culturas – vale dizer do contato entre as pessoas (os que estavam e os que chegaram) da interação, compartilhamento de experiências e de atos simbólicos – os túmulos dos cristãos, dependendo do número de pessoas nele enterrados, pouco a pouco passaram a ostentar mais de uma cruz. Por vezes, há mais de um nicho. E, mais raramente, campas geminadas (fato peculiar às 3 cidades).

É ainda frequente nos túmulos cristãos (ou pelo menos encimados por cruzes) estarem ardendo feixes de hossenko – o incenso verde com que os budistas homenageiam os mortos.

Na contrapartida, muitos túmulos passaram a ostentar ao lado das citadas “penas de madeira”, cruzes e/ou outros símbolos cristãos. Muitas capelas fúnebres são erguidas, sobretudo em Registro, encimados por cruzes e imagens de santos católicos (sobretudo Santo Antônio, Coração de Jesus e Nossa Senhora Aparecida), internamente abrigam feixes de incenso e outros símbolos familiares aos budistas.

Velas, incensos, frutas e outros tipos de alimentos costumam estar, frequentemente, associados.

Muitas gerações depois, isseis, nisseis, sanseis, ionseis, “mestiços e brasileiros“, juntam-se, a 1º

de Novembro, às margens do Rio Ribeira para uma cerimônia de finalidade cara às duas culturas: a homenagem aos mortos. É o dia da cerimônia do Tooro- Nagashi (barcos luminosos 6) que são soltos nas águas do rio na noite de véspera do dia de finados.

Tive oportunidade de documentá-la cerca de 25 anos atrás (1988). A cerimônia tomou grandes proporções na última década, com adesão de grande parcela da população de Registro, de etnias e segmentos religiosos diversos. Mesmo quem não participa diretamente, contribui para sua realização. Mesmo quem não toma parte, de forma cerimonial, entende a simbologia. Sabe do que se trata.

Comunicação é, em essência, sistemas de trocas, possibilidade de compartilhamento de experiências, produção, utilização de signos, símbolos, atos simbólicos que enriquecem. Tanto mais “imediata”, baseada nas relações diretas, entre pessoas de um mesmo “universo cultural” ou com interesses aproximados, mais cumprirá esta função de trocas que enriquecem.

Assim entendemos, nesta data, o nosso Vale do Ribeira.

Toninho Macedo

Outono 2013

  1. Rui Coelho, in Por entre as Dórcades Encantadas: Os Bijago da Biné-Bissau, Dilma de Melo Silva
  2. Denominações dos descendentes de japoneses: 1ª geração (isseis, imigrantes); 2ª geração (nisseis, filhos); 3ª geração (sanseis, netos); 4ª geração (Yonseis, bisnetos).
  3. Foi em 18 de junho de 1908, que chegou ao porto de Santos o Kasato Maru, navio que trouxe 165 famílias de japoneses. A grande parte destes imigrantes era formada por camponeses de regiões pobres do norte e sul do Japão, que vieram trabalhar nas prósperas fazendas de café do oeste do estado de São Paulo.
  4. Incenso ritual de tradição budista.
  5. Findo o funeral, o bonzo entregará à família o ihai (tabuleta votiva) contendo os nomes (civil e sagrado) do(a) falecido(a) e a data do óbito. O mesmo será entronizado no oratório doméstico.
    1. Trata-se de pequenas tábuas de pinho, ou de outro material flutuantes, com armações quadradas em formato de lanternas, revestidas de papel de ceda, com orações inscritas, protegendo uma vela.

Ocorrência: Bauru, Cafelândia, Lins, Promissão, Registro, São Miguel Arcanjo.

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