Artesanado de Palha de milho, da cidade de Redenção da Serra. Artesã Giselda. Fotografia de Reinaldo Meneguim

São Benedito

ic_s_beneditoA devoção a São Benedito é muito forte e difusa por todo o estado, motivando muitas de nossas grandes festas e motivando a existência e atuação de nossos congos, moçambiques, jongo e batuque. Suas festas se estendem por todo o ano, sendo que o grande número e monumentalidade das mesmas em todo o Vale do Paraíba e Litoral Norte, concentradas no período compreendido entre a pascoela e o 13 de Maio, estabelece um verdadeiro Ciclo de São Benedito.

Sinhô, São Benedito hoje é o vosso dia, bambarirê, oia lá!
Atibaia, Janeiro de 2011 -Toninho Macedo
bambarirê, oia lá!  (44)
São Benedito já foi cozinheiro,
Hoje ele é rei tão verdadeiro.
Olê, olé, olé!
Olê, olé, olá!

“ Da casa das caldeiras passemos à casa de purgar, que parece o purgatório do açucar, porque estão nos andaimes postas as formas como almas do purgatório, purgando as fezes do pecado, o mel e remel dos deleites mundanos, até que saem do purgatório, e se põem no tendal aos raios do sol da justiça, onde limpas de cara e de cagucho, ficam caras capazes de verem a cara de Deus (…) Para isto está o Senhor S. Miguel pesando nas suas balanças as almas como pães de açúcar. No dia do Juízo, que é o dia do peso e encaixamento, se verá que o açúcar fino são os maiores Santos da Igreja Católica; o aúcar retumbados convertidos; e o mascavado que preço terá? De certo mascavado sei eu, e se lhe chamar retame, não o afronto, que terá maior preço que muito açúcar branco. E quem será? São Benedito, glória dos pretos, crédito dos mascavados, maravilha dos retames, será tão estimado e tão subido o açúcar de Benedito, que todas as caixas que se embarcarem para o Reino do Céu naquele dia, levarão na marca a Benedito, porque com o título de Beneditos entrará a salvamento no porto do Céu a frota de predestinados: Venite benedcti Patris mei.

Frei Antônio do Rosário, Frutas do Brasil, Ministério da Cultura/ Fundação Biblioteca Nacional, rio 2008- Fac-símile da edição de 1702

Nascimento: 1526 (San Fratello, Itália). Falecimento: 4 de abril de 1589 (Palermo, Itália)

Pais: Diana Manasseri e Cristoforo Manasseri

S. Benedito é o mais familiar dentre os santos de cor e o seu culto, desenvolvido na Europa, alcançou imensa aceitação no Brasil,  por parte de escravos, forros, mulatos e mesmo brancos. Considerado o advogado dos negros, foi objeto de uma festa espe­cial e solene, que ainda se realiza em algumas velhas cidades. Na curiosíssima obra intitulada Frutas do Brasil, Frei Antônio do Rosário compara-o ao açúcar mascavo, dizendo:

“Se nos lembrarmos de que é dos poucos santos mencionados e exaltados nesse livro, que se dedica a Nossa Senhora, ja vale por uma glorificação.”

O Santo Preto de Palermo e outras devoções negras no Reino
“Em Portugal, a primeira irmandade dedicada a São Benedito foi instituída no ano de 1609 no Mosteiro de Santana, em Lisboa (LAHON, 1999B: 136). Não consta que esta tenha sido uma irmandade preferencialmente de negros, como a que se formou no convento de São Francisco, na mesma cidade de Lisboa26. A instituição da devoção na Bahia colonial sugere que a devoção ao santo preto de Palermo também tenha sido popular entre os brancos.”
África em Portugal: devoções, irmandades e escravidão no Reino de Portugal, século XVIII –  Lucilene Reginaldo

A par da devoção à Senhora do Rosário, foi tomando corpo a devoção a São Benedito, com incrível rapidez: a propagação da devoção ao santo negro, se deu logo no seguir de sua morte (1589), antes mesmo da abertura do processo para sua beatificação. Sua canonização só foi efetivada em 1807. Entretanto, como apontado logo anteriormente, já em 1639 o povo já lhe conferia a glória dos altares.

“Algumas ordens religiosas tiveram um importante papel na propagação de devoções adotadas pela população negra no período colonial. A importância dos franciscanos na propagação do culto a São Benedito justifica-se, primeiramente, por ser este santo um religioso desta ordem. Em Lisboa e na cidade do Porto, bem como em outras partes da América Portuguesa, foi possível identificar irmandades dedicadas a São Benedito em conventos franciscanos.”
África em Portugal: devoções, irmandades e escravidão no Reino de Portugal, século XVIII –  Lucilene Reginaldo

Na 4ª edição do Entre Serras e Águas, que marcou a 40ª edição do Revelando São Paulo, aflorou a necessidade de se homenagear, de forma especial, São Benedito. O que também resultou em importante reconhecimento dos nossos congos e congadeiros, moçambiques e moçambiqueiros, caminheiros, jongueiros e batuqueiros, e membros de suas Irmandades, incontestes devotos que me apresentaram ao santinho manhoso.

Sim, em nossas devoções populares atribuímos uma série de caprichos ao nosso patrono: ele deve ser sempre o primeiro a ser saudado, deve se fazer presente nas festas dos demais oragos e ganhar a precedência nos cortejos religiosos. Em muitas residências a ele sempre se oferece, simbolicamente, o gole mais quentinho do café mais fresquinho, um raminho fresco de salsa ou cebolinha. E isto ofertado em seu lugar de destaque nas residências- a cozinha. Sim, São Benedito protetor da cozinha e dos cozinheiros, mas, sobretudo gestor da providência.

Oficialmente a Igreja Católica, quando de sua canonização, que só se deu em 24 de maio de 1807, (45) lhe reservou em seu calendário litúrgico o 4 de abril, data de sua morte (4 de abril de 1589), para seu dia festivo oficial. O que se constata, entretanto, é uma multiplicação de outras datas para a celebração de suas festas, o que lhe resulta em festejos o ano todo.

Para nos situarmos, somente em São Paulo, no Vale do Paraíba, tendo como marco a pascoela (a pequena Páscoa, referência tradicional à 2ª feira imediata ao Domingo de Páscoa), tem início um verdadeiro ciclo festivo, que se estende da referida data até próximo a 13 de Maio. Neste período as festas se sucedem em praticamente todos os municípios da região, e em muitos casos são coincidentes. A começar por Aparecida, onde seus festejos se integram aos do próprio Domingo da Páscoa. Das maiores festas com cavalarias e cavalgadas, concentração de congados, grandes mesadas de doces e comezainas, até aquelas singelasem que são, singelamente, servidos café com bolacha aos que se reuniram para celebrá-Lo.

Entre Setembro e Outubro um outro calendário festivo se estabelece entre a Capital e o Médio Tietê, coincidindo então com os festejos dedicados à Senhora do Rosário.

O mais interessante, entretanto, é seu o ciclo de celebrações que se acopla ao Ciclo Natalino/ de Santos Reis, este o mais difuso de todos. Abrange desde vários municípios do Vale do Ribeira, (em Iguape 6, de Janeiro é feriado municipal, por ser grande festa do santo), até o oeste do estado.

Neste período a congada de Santana do Parnaíba, hoje hibernando, outrora o homenageava, nos dias que se seguiam ao Natal, com lindas quadras em que se entrecruzavam as loas à Senhora, ao Menino e ao  Santo Patrono:

Abalou seu povo em tão poucos dias
Foram vê o Menino Filho de Maria
Nasceu antonte o Rei da Glória
No capim verde, na terra Vitória

Como dito acima, a Igreja tardou em reconhecer o que praticamente já era “oficial”: em 7 de maio de 1592, seu corpo foi exumado pela primeira vez, tendo sido encontrado em perfeito estado de conservação, sendo assim trasladado para o interior de um templo. Em 3 de outubro de 1611 foi novamente trasladado e colocado em urna de cristal, a partir de então exposto à visitação pública, como se encontra até o presente na capela lateral da Igreja de Santa Maria, em Palermo, Itália (Foto abaixo). Mesmo antes de sua canonização (1807), foi escolhido pelo Senado de Palermo como patrono da cidade em 1713.

A esta altura, entretanto, seu culto já havia sido difundido por toda a Europa e aportado na América do Sul, onde as populações negras o elegeram como protetor.

Lá vem o meu parente! (Antônia Quintão)

A iconografia oficial de São Benedito, com uma criança no colo, tanto nos apresenta seus êxtases ao contemplar Maria com o Menino, quanto algumas de suas intervenções miraculosas. Consta que, numa das celebrações da aurora de Natal, no Convento de Santa Maria di Gesú, Frei Benedito, ao receber a comunhão, sentiu o Menino Jesus em seu coração, e entrou em êxtase, e assim permaneceu por várias horas em arrebatamento, a contemplá-Lo. Deixou a comunidade preocupada como preparo do almoço, que estava a seu encargo. Entretanto, para surpresa de todos, na hora devida, a refeição estava servida, como o esperado.

Há ainda quem afirme, o que também é possível, que sua representação com uma criança em seus braços pode se motivada por outras intervenções suas. São relatos que dão conta de que, por mais de uma vez, Benedito tomando em seus braços os corpos de crianças vitimadas em acidentes, reanimou-os.

Nosso Patrono tinha o costume de recolher as sobras de comida do convento em seu avental para distribuí-las depois aos pobres.

Certa vez encontrou-se com o vice-rei da Sicília, Dom Marcantonio Colonna, que, atraído pela fama de sua santidade, veio visitá-lo.

Curioso, o ilustre visitante perguntou a Benedito o que levava com tanto cuidado. Ele simplesmente abriu o avental e mostrou…flores. Tão frescas e aromáticas, que o vice-rei levou-as para o altar de sua capela particular.

A partir daí uma outra iconografia surgiu: São Benedito das flores.

Sua origem era humilde. Nasceu na Sicília, filho de Cristóvão Manasceri e Diana Larcan, cristãos descendentes de escravos provenientes da Etiópia. Foi pastor de ovelhas, sempre fiel ao seu dever, mantendo-se sempre em oração enquanto pastoreava, momentos em que, não raro era arrebatado em êxtase.

Consta ainda, em contrário ao perfil inculto que freqüentemente lhe é atribuído, que Benedito era dono de grande sabedoria natural (o que se dá o nome de dom da ciência infusa) e de uma grande capacidade de atingir o coração das pessoas. Por conta disto um grande número de pessoas acorria a ele para consultá-lo, entre os quais sacerdotes, teólogos e até nobres. Ocupou o cargo de Superior de seu convento, proferindo aulas sobre assuntos teologais, revelando-se, ainda, um grande conselheiro para os noviços.

Entretanto fez da cozinha seu santuário, local em que aconteceram alguns dos milagres que o projetaram,

todos eles tendo como eixo a providência (alimentos que abundaram em períodos de escassez, peixes que apareceram em panelas cheias de água pães que se multiplicaram; e até mesmo a lenha para os provimentos conventuais).

A presença constante e encantatória de São Benedito, perpassa os mais diversos momentos do Revelando São Paulo, em cada uma de suas edições, com a condução ou adesão espontâneas de devotos fervorosos ou de simpatizantes. Esta passou a ser uma das marcas deste grande exercício de convivência pacífica, respeitosa com a diversidade.

São Benedito não foi o único santo preto cultuado na Península Ibérica. No imaginário cristão anterior à expansão portuguesa na costa atlântica da África, personagens e santos negros ligados ao reino cristão etíope, já tinham sido incorporados no projeto da Cristandade Ocidental. Assim, “antes de serem cultuados pelos negros africanos, o foram pelos brancos europeus” (PINTO, 2000: 61).

foto

Corpo preservado de São Benedito
Fonte: São Benedito, o Santo Negro – Monsenhor Ascânio Brandão –
guardião do Convento de Santa Maria de Jesus, em Palermo, Itália.
É nesse convento que se encontra preservado o corpo de São Benedito.
Indústria Gráfica Siqueira, 1949

Nota 44 Festa de São Benedito em Aparecida

 “As comemorações atingiram, porém, o máximo de esplendor, encantamento e sucesso em 1922, quando “rei” Sátiro Leonardo de Paiva, mineiro aqui residente já há muitos anos, e proprietário do Hotel São Paulo e Minas. Era alegre e entusiasmado e já fora “rei” em seu Estado. Não tendo oportunidade de vestir elegante farda em Minas Gerais, como era de sua vontade, serviu-se do ensejo novamente apresentado e encomendou no Rio de Janeiro vistoso fardamento em azul forte, quase marinho, enfeitado com alamares e dragonas douradas. Foi esse o único “rei” que se trajou diferentemente.” …

“ Os “reis”, inicialmente, pagavam Cr$ 50,00 de jóia e os juízes, Cr$ 30,00.

É comum usar-se a expressão “Sair para rei” quando se quer fazer referência à escolha ou designação, bem assim “sair para juiz”, “sair para rainha”.

Há famílias que inscrevem quase todos os seus membros na lista dos futuros festeiros e aguardam oportunidade.

Assim, a família Macedo: o sr. Benedito José de Macedo Sobrinho, foi o “rei” em 1931; Seu filho Cristóvão  já havia sido em 1930. Em 1950 encontramos Expedito, também seu filho, como “rei”. Uma filha,Maria José, foi rainha em 1956.

Senhor Benedito Júlio Barreto, ex-prefeito municipal e maestro do Coro da Basílica de Nossa Senhora Aparecida, foi “rei” em 1927; vinte anos após, seu filho, o expedicionário Benedito Júlio Barreto Filho, era também “rei” em 1947, agradecendo sua vida quando em luta, em Monte Castelo.

Sátiro Leonardo de Paiva, “rei” em 1922, o primeiro a se vestir mesmo com traje real, em 1956 era o seu neto Luís Bento de Oliveira que se trajava como o avô e este ano, a bisneta de Sátiro, Helena Vêntola de Oliveira era também a primeira “rainha” de São Benedito a levar a linda e admirada copa de veludo. Trouxemos fotografias e os programas dos neto e bisneta de Sátiro.

Nas primeiras festas “rei” e “rainha” não possuíam alas de damas e cavalheiros.

Saíam de suas casas ao espoucar de uma girândola e uma companhia de amigos especialmente convidados. Hoje, “rei” e “rainha” possuem damas e cavalheiros de honra. O “rei” sai primeiro e rodeado de sua corte, vai buscar a “rainha” que já o espera com suas damas de honra.

As coroas e os distintivos são da própria irmandade de São Benedito, que os restaura ou confecciona novos, quando necessário.

O rei deste ano foi Benedito Minas dos Santos (Tatu).

Festeiro alegre e muitíssimo relacionado. Tatu faz na “Rádio Aparecida”, a grande emissora do país, o programa “Sertão do meu Brasil”, com ouvintes de norte a sul. Querendo se apresentar bem aos seus ouvintes desconhecidos que correram para a festa, Tatu mandou confeccionar no Rio de Janeiro, a sua coroa. Uma coroa diferente das outras, que eram de cetim branco, galão, fitas – e a coroa veio de metal dourado, de filigranas e com enormes pedras coloridas.

Irmandade de São Benedito – na primeira reunião em 1909, com 23 irmãos, hoje possui 230, sendo a maior parte residente neste município e os demais em outros. Paga-se apenas a jóia anual de ???, sendo que inicialmente era dois mil réis.” (Maria de Lourdes Borges Ribeiro)

 

Nota 45 – Carlinhos tem prática de Moçambique há mais 20 (registro feito em 1987) e tantos anos, sendo sempre dançadô no meio em outras companhias. Quem não é mestre ou contra-mestre e não é repartidô, é dançadô meio. São 3 repartidô. Depois, montou a Companhia “com as graças de Deus, e assumi a responsabilidade de frente como o mestre”.

Depois vieram outros dois mestres, cada um com mais de 50 anos de Moçambique. Para formar uma companhia é preciso reunir um grupo de pessoas interessadas, com que se possa contar. E levar a sério a obrigação. Depois trená o pessoal. É a parte mais difícil. Só depois se pensa em uniforme. Dois meses de “treino dá pá pegar a prática”. Só os fins de semana. Depois não precisa mais trená.

Conhece a dança do Moçambique desde os 8 anos de idade. A mulher e o filhos, estes pequenos em 87, acompanhavam mais no gosto, na fé, no apoio; estavam juntos. Hoje todos dançam nas filas. “Quarqué compromisso que eu tinha na irmandade de São Benedito, eles tão junto comigo”.

Nota 47  – No geral quase todo moçambiquero relata alguma graça recebida. E por ela é agradecido.

“Já recebi várias Graças de São Benedito, dentro da minha casa. Não foi só uma, foram uns 4 ou 5 milagres. Eu estive trabalhando nos fundo um dia de sábado, e essa menina minha brincano comigo. Depois ela falô: – Papai, eu vô com mamãe: – Então vá minha filha. E continuei trabalhano. Demorô  5 minuto minha mulhé vorta com ela no colo, minha mulhé branquinha e ela c’os olhos estalado. A minha mulhé falô: Bem a neném perdeu a fala! Era criança, tava quase engatinhando naquela época, fiquei com medo de ter engolido alguma coisa. A gente falava com ela e ela só esticava o corpinho. A mulhé saiu chorando, apavorada. Minha sogra tinha 15 dias que tinha voltado do hospital, que tinha dado ameaça de derrame nela, não podia ver choro perto dela. Saiu, foi na casa da vizinha. Eu fui panhá as ferramenta, pá podê i prá cidade. Então eu fiz o pedido a São Benedito. A São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, que atendesse o meu pedido que eu tava fazeno em nome de Deus, que a minha minina voltasse a falá, que não houvesse problema, ninhum qui ela tivesse ingulido alguma coisa, qui a próxima família que viesse na minha família teria Benedito e se fosse mulher teria Rosário. Não demorô 5 minutos, minha mulhé vortô com a minha menina nos braços chamano meu nome. Esse foi o maior milagre que eu recebi na minha casa. Então é uma coisa que a gente leva com muita fé”.

Nasceu o pequeno e ficou chamado Gilberto Benedito. “Então é uma coisa que eu vou dizer prá vocês aqui hoje, que essas bandeiras eu só posso abandoná depois que eu morrê.”

– Todo fim de semana estão com 20 ou 25 pessoas. A mulher no meio do pessoal feliz, contente – ajuda a passar fitas para o povo. “Nessas parte eu tenho uma grande paz na minha família. Graç’ a Deus.

13- Festas de São Benedito

Em muitas cidades do interior paulista e de todo Brasil, principalmente no Vale do Paraíba, Estado de São Paulo, a festa de São Benedito é cheia de alegria e aguardada durante um ano.

Aguardada com fé, com promessas, com devoção e com preparos de doces e enfeites.

Não tem data fixa, porém tem a sua época determinada. Por ser o Vale do Paraíba, com as suas cidades e povoados, o antigo roteiro do café para a Corte de São Sebastião do Rio de Janeiro, por ser a Estrada Real cheia de Fazendas e Casas Grandes, era grande o movimento de escravos.

O negro é sentimental por natureza e cheio de rezas e devoção. Dentre os Santos, São Benedito é o mais adorado.

Em qualquer senzala, havia um oratório para São Benedito, ou colocavam o Santo sobre uma mesinha tosca. Era sempre feito a mão, canivete, rudimentar e não escolhiam madeira e feito também de barro e pintado de preto.

Festa de São Benedito em Aparecida – Conceição Borges Ribeiro Camargo e Maria de Lourdes Borges Ribeiro

http://www.jornalolince.com.br/galeria/escritores/conceicao/festa_saobenedito_aparecida_jornalolince.pdf

Sinhô, São Benedito hoje é o vosso dia, bambarirê, oia lá!

 São Benedito já foi cozinheiro,
Hoje ele é rei tão verdadeiro.
Olê, olé, olé!
Olê, olé, olá!

Esta 4ª edição do Entre Serras e Águas, a 40° do Revelando São Paulo, é dedicada, de forma especial a São Benedito. Para satisfação de todos nós, esta efeméride – a celebração de um valioso conjunto de ações bem sucedidas – coincide com a edição que tem por sede Atibaia, e como motivação para sua realização a já tradicional festa de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, e seu significativo Encontro de Congos.

Assim, nesta marca da 40ª edição do Revelando São Paulo aflora a necessidade de se homenagear, de forma especial, São Benedito. O que também resulta em importante reconhecimento aos nossos congos e congadeiros, moçambiques e moçambiqueiros, caminheiros, jongueiros e batuqueiros, e membros de suas Irmandades, incontestes devotos que me apresentaram ao santinho manhoso.

Sim, em nossas devoções populares atribuímos uma série de caprichos ao nosso patrono: ele deve ser sempre o primeiro a ser saudado, deve se fazer presente nas festas dos demais oragos e ganhar a precedência nos cortejos religiosos. Em muitas residências a ele sempre se oferece, simbolicamente, o gole mais quentinho do café mais fresquinho, um raminho fresco de salsa ou cebolinha. E isto ofertado em seu lugar de destaque nas residências- a cozinha. Sim, São Benedito protetor da cozinha e dos cozinheiros, mas, sobretudo gestor da providência.

Oficialmente a Igreja Católica, quando de sua canonização, que só se deu em 24 de maio de 1807, lhe reservou em seu calendário litúrgico o 4 de abril, data de sua morte (4 de abril de 1589), para seu dia festivo oficial. O que se constata, entretanto, é uma multiplicação de outras datas para a celebração de suas festas, o que lhe resulta em festejos o ano todo.

Para nos situarmos, somente em São Paulo, no Vale do Paraíba, tendo como marco a pascoela (a pequena Páscoa, referência tradicional à 2ª feira imediata ao Domingo de Páscoa), tem início um verdadeiro ciclo festivo, que se estende da referida data até próximo a 13 de Maio. Neste período as festas se sucedem em praticamente todos os municípios da região, e em muitos casos são coincidentes. A começar por Aparecida, onde seus festejos se integram aos do próprio Domingo da Páscoa. Das maiores festas com cavalarias e cavalgadas, concentração de congados, grandes mesadas de doces e comezainas, até aquelas singelas em que são, singelamente, servidos café com bolacha aos que se reuniram para celebrá-Lo.

Entre Setembro e Outubro um outro calendário festivo se estabelece entre a Capital e o Médio Tietê, coincidindo então com os festejos dedicados à Senhora do Rosário.

O mais interessante, entretanto, é seu o ciclo de celebrações que se acopla ao Ciclo Natalino/ de Santos Reis, este o mais difuso de todos. Abrange desde vários municípios do Vale do Ribeira, (em Iguape 6, de Janeiro é feriado municipal, por ser grande festa do santo), até o oeste do estado.

Neste período a congada de Santana do Parnaíba, hoje hibernando, outrora o homenageava, nos dias que se seguiam ao Natal, com lindas quadras em que se entrecruzavam as loas à Senhora, ao Menino e ao Santo Patrono:

Abalou seu povo em tão poucos dias
Foram vê o Menino Filho de Maria
Nasceu antonte o Rei da Glória
No capim verde, na terra Vitória.

Como dito acima, a Igreja tardou em reconhecer o que praticamente já era “oficial”: em 7 de maio de 1592, seu corpo foi exumado pela primeira vez, tendo sido encontrado em perfeito estado de conservação, sendo assim trasladado para o interior de um templo. Em 3 de outubro de 1611 foi novamente trasladado e colocado em urna de cristal, a partir de então exposto à visitação pública, como se encontra até o presente na capela lateral da Igreja de Santa Maria, em Palermo, Itália (Foto abaixo). Mesmo antes de sua canonização (1807), foi escolhido pelo Senado de Palermo como patrono da cidade em 1713.

A esta altura, entretanto, seu culto já havia sido difundido por toda a Europa e aportado na América do Sul, onde se tornou o protetor das populações negras. A iconografia oficial de São Benedito, com uma criança no colo, tanto nos apresenta seus êxtases ao contemplar Maria com o Menino, quanto algumas de suas intervenções miraculosas. Consta que, numa das celebrações da aurora de Natal, no Convento de Santa Maria di Gesú, Frei Benedito, ao receber a comunhão, sentiu o Menino Jesus em seu coração, e entrou em êxtase, e assim permaneceu por várias horas em arrebatamento, a contemplá-Lo. Deixou a comunidade preocupada como preparo do almoço, que estava a seu encargo. Entretanto, para surpresa de todos, na hora devida, a refeição estava servida, como o esperado.

Há ainda quem afirme, o que também é possível, que sua representação com uma criança em seus braços pode se motivada por outras intervenções suas. São relatos que dão conta de que, por mais de uma vez, Benedito tomando em seus braços os corpos de crianças vitimadas em acidentes, reanimou-os.

Nosso Patrono tinha o costume de recolher as sobras restos de comida do convento em seu avental de para distribuí-los depois aos pobres. Certa vez encontrou-se com o vice-rei da Sicília, Dom Marcantonio Colonna, que, atraído pela fama de sua santidade, veio visitá-lo.

Curioso, o ilustre visitante perguntou a Benedito o que levava com tanto cuidado.

Ele simplesmente abriu o avental e mostrou…flores. Tão frescas e aromáticas, que o vice-rei levou-as para o altar de sua capela particular.

A partir daí uma outra iconografia surgiu: São Benedito das flores.

Sua origem era humilde. Nasceu na Sicília, filho de Cristóvão Manasceri e Diana Larcan, cristãos descendentes de escravos provenientes da Etiópia. Foi pastor de ovelhas, sempre fiel ao seu dever, mantendo-se sempre em oração enquanto pastoreava, momentos em que, não raro era arrebatado em êxtase.

Consta ainda, em contrário ao perfil inculto que frequentemente lhe é atribuído, que Benedito era dono de grande sabedoria natural (o que se dá o nome de dom da ciência infusa) e de uma grande capacidade de atingir o coração das pessoas. Por conta disto um grande número de pessoas acorria a ele para consultá-lo, entre os quais sacerdotes, teólogos e até nobres. Ocupou o cargo de Superior de seu convento, proferindo aulas sobre assuntos teologais, revelando-se, ainda, um grande conselheiro para os noviços.

Entretanto fez da cozinha seu santuário, local em que aconteceram alguns dos milagres que o projetaram, todos eles tendo como eixo a providência (alimentos que abundaram em períodos de escassez, peixes que apareceram em panelas cheias de água pães que se multiplicaram; e até mesmo a lenha para os provimentos conventuais).

A presença constante e encantatória de São Benedito, perpassa os mais diversos momentos do Revelando São Paulo, em cada uma de suas edições, com a condução ou adesão espontâneas de devotos fervorosos ou de simpatizantes. Esta passou a ser uma das marcas deste grande exercício de convivência pacífica, respeitosa com a diversidade.

Atibaia, Janeiro de 2011 -Toninho Macedo

Ocorrência: Aparecida, Araraquara, Areias, Ariranha, Biritiba-Mirim, Brotas, Cachoeira Paulista, Capivari, Charqueada, Conchas, Fernando Prestes, Guaiçara, Guaratinguetá, Ibirá, Ibitinga, Ibiúna, Igaratá, Iguape, Ilhabela, Iporanga, Itapira, Itu, Jaci, Monte Alto, Morungaba, Palmares Paulista, Paraíso, Pereiras, Pindamonhangaba, Porto Feliz, Redenção da Serra, Roseira, Sales, Santana de Parnaíba, São Bento do Sapucaí, São Jose dos Campos, São Luis do Paraitinga, Serra Negra, Silveiras, Taiaçu, Tietê, Urânia.

 



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