Artesanado de Palha de milho, da cidade de Redenção da Serra. Artesã Giselda. Fotografia de Reinaldo Meneguim

Música

É meio, e não produto – na sua qualidade de música permeia as relações sociais e é por elas moldada. Música em sentido lato, abrangendo a letra, a poesia que nela se escora, o universo que ela verbaliza cantando e o universo que a utiliza como ponto de apoio em relações sociais (bailes, brincadeiras cantadas, …).

Zabumbeiras – Banda de Pífaros – Laranjeiras – São numerosos, afamados e respeitados os nossos trovadores. É o repente (Cururu, calango), o desafio trovado ao som de violas, ou de pé de bode (sanfona de 8 baixos). Não há quem arrede pé diante de uma porfia de repentistas num revezamento de vários trovadores.

Numerosos e afamados são também os violeiros e rabequistas com as modas de sítio executadas em duplas nas funções (bailes, reuniões) ou mesmo nos encontros fortuitos.

A música, em suas várias formas de expressão – instrumental, percussiva, vocal (à capela ou com acompanhamento), polifônica, em duetos ou solos – se faz presente no dia a dia de nossas comunidades, e nas diversas circunstâncias: no trabalho, na religiosidade, nas celebrações, nas folganças, no brincar. No cantarolar ou no assobiar despreocupados com que, quando a sós ou imersos em alguma atividade individual, inconscientemente se busca espantar a solidão ou amainar as agruras.

Muitas das vezes é resultado de encontros, de estar junto, celebração da alegria da comunhão.

É o caso da música em função de tantas danças tradicionais, relação tão intrincada que as modas que levam nomes das danças que motivam. Chotes (carrerinha, marcado, inglês, passeio,…), Vaneras, Vanerinhas e Vanerões, Mazurcas, Rancheiras,…No mais das vezes, descrevem suas coreografias, não se sustentando fora do contexto do tocar aqui, e dançar logo ali à frente. Não sobrevivem de forma isolada, a menos que outros elementos sejam incorporados, e destacados, como a poesia. Aí surgem as modas, as candongas (que são modas jocosas), os querumanas (as modas cantadas, entremeadas na função dos fandangos), repentes, toadas (as partes entoadas de nossos vários folguedos).

Neste último caso, a música como parte de nossos folguedos, de forma especial nos congos, moçambiques e folias de reis, adquire uma maior complexidade, seja no item instrumentação (cordas, acordeons, percussão variada, rabecas e pés de bode), ou mesmo nas armações de vozes quando, de forma especial, podem chegar a 8 vozes se superpondo. É o caso, de forma especial, dos congos, moçambiques, benditos, recomendas de almas e folias de reis do noroeste paulista.

O sociólogo José de Souza Martins, tão envolvido com estes temas de nossa cultura tradicional em suas vertentes, em seu essencial estudo Viola Quebrada (*) nos aproximou dos conceitos de função imediata e função mediata. Este, claro dando conta da música inserida no universo mediatizado, e aquele dando conta do universo da música produzida em função ou por motivação das necessidades ou demandas específicas de cada comunidade, em seus momentos igualmente específicos.

Os casos que abordamos aqui aninham-se no conceito de função imediata, como elucidado por aquele mestre.

Quanto às modas, este intrincado universo expressivo em que se imbricam linhas melódicas e produção poética, ajuda-nos a compreendê-lo em sua complexidade, entre tantos outros, os trabalhos de Amadeu Amaral (Tradições Populares), e de Rossini Tavares de Lima (entre outras obras suas, Moda de viola, poesia de circunstância, que tive a satisfação de editar após sua morte).

Neste universo das modas e toadas, temos aquelas produzidas em desafios, tal nosso cururu e calangos.

Cururu é o repente, o desafio trovado ao som de violas do Médio Tietê. São numerosos, afamados e respeitados os cururueiros (os trovadores) da região. Alguns deles com várias viagens para o exterior. Não há Festa ou Pouso do Divino no médio Tietê sem cururu, este pode varar a noite num revezamento de vários trovadores. E não há cidadão que arrede pé diante de uma porfia de canturiões (cantadores). Cururueiros há que arrastaram uma legião de fiéis admiradores.

Até um tempo atrás o cururu era uma expressão mais complexa envolvendo, inclusive, dança. Pedro Chiquito, que foi figura emblemática deste universo, oriundo de Piracicaba, cururuero negro, durante uma conversa que tivemos no antigo Museu Rossini Tavares de Lima, nos falou, e demonstrou como era. Na ocasião pegou um pequeno adufe do acervo, e logo saiu cantando, batucando e dançando. Dança de nego, dizia ele. E tinha a ver.

Interessante que quase no início do século 20, em Conversa ao pé do fogo, o inquieto Cornélio Pires fez deste cururu/dança o seguinte relato, que confirma o de Pedro Chiquito muito tempo depois:

Dansa em que tomam parte os poetas sertanejos, formando roda e cantando cada um por sua vez, atirando os seus desafios mutuos. Os instrumentos usados são: a “puyta”, (Instrumento africano trazido pelos escravos), rouquenha, em forma de um pequeno barril tendo o fundo de couro de cabra com uma varinha ao centro; a trepidação produzida com um panno molhado empalmado pelo executante, produz o som, um verdadeiro ronco; o “réqueréque” que é um gommo de bambú, de meio metro, dentado, em que o tocador passa compassadamente uma palheta do mesmo vegetal, secco; o “pandeiro”, os “adufes”, e a celebre “viola”. Os “cururueiros” cantam sem amostras de cansaço, desde o anoitecer até o amanhecer.

É uma dansa mixta do africano e do bugre.

Paralelamente ao universo dos cururueiros, documentamos os calanguistas, responsáveis por outra expressão de repente, o Calango, esta abrangente de todo o vale do Paraíba, de São Paulo à sua foz do Norte do Janeiro. Em São Paulo pesquisada por Francisco Pereira da Silva, o famoso Chico Triste, com publicação sobre o fato (Desafio calangueado).

É bastante fácil encontrar violeiros e rabequistas em todo o Litoral Sul e Vale do Ribeira. E encontrá-los em grande número. Quando há funções (bailes, reuniões) ou mesmo um encontro fortuito, aparecem várias violas secundadas por violões, cavaquinhos e rabecas, estas as suas parceiras mais constantes. A viola é sempre o instrumento central, a única que não pode faltar. A faixa etária dos violeiros é bastante variada, indo de jovens (18 anos) aos mais idosos (80 anos). Ao contrário, os rabequistas são encontrados entre os mais idosos, apesar de que os jovens também considerem e apreciem as rabecas.

As violas são profusas e ainda conduzem a maior parte dos bailes caiçaras – o fandango. Quando querem dizer que o baile será mais de acordo com os usos da terra, dizem que haverá fandango. Ou, para explicitar mais ainda, dizem que haverá baile de viola, baile de sítio, mesmo quando o mesmo tem lugar na cidade. E as modas executadas modas de sítio. (ver pag…119)

Tratam-na como a uma pessoa, um ente querido. Para o caiçara, a viola fala, chora. É a portadora de seus sentimentos. Confeccionada artesanalmente na própria região, e igualmente a rabeca, recebe o nome de viola branca pela cor da madeira de que é feita, a caxeta. É a própria viola caipira. Na versão caiçara podem ser usadas com cinco cordas simples ou duplas (7 a 10 no total), podendo, ainda, possuir uma 1ª corda mais curta – o periquito.

Os flagrantes que se seguem, registros de momentos de descontração ou mesmo de momentos rituais, ilustram bem o conceito de função imediata enunciado acima.

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Ribeirão Grande

Bairro do Ribeirão dos Cruz – Casa de D. Gertrudes.

Dito Inês, Tia Gertrude e Zé, num dos muitos saraus, em noites de inverno, em que se avivaram benditos, recomendas, histórias e candongas (modas jocosas).

Foto: TM- Julho de 1981

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No Ciclo de Reis de 1987, a formação musical da reiada de Pariqueraçu, Vale do Ribeira, com destaque, à frente para as duas violas brancas: a da esquerda, uma viola inteira, e a da direita uma viola ¾.

Foto: TM- Janeiro 1987

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Ribeirão Grande
Baile de fandango no casamento de Tonico Inês e Natalina. Na cantoria: Elói Inês (viola), Zé Franco

e Zé Hipólito (viola). Como soe acontecer nestes casos, os cantores sempre se acompanham.

Foto: TM- Maio de 1982

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Ribeirão Grande – Bairro Ribeirão dos Cruz

Baile de casamento. Dentre as modas, rancheiras, mazurcas, valsados, licha-pés, vaneiras, vaneirões, vaneirinhas,…Tonico Inês (acordeon) e João Timóteo (violão).

Foto: TM- Maio de 1982

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Ribeirão Grande – Bairro Ribeirão dos Cruz

Arrodeado de fandango, não importando o aperto da sala. Aurélio Sota (Souto), com uma pé de bode (sanfona de 8 baixos), e Cláudio Balaio.

Foto: TM- Maio de 1982

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Ribeirão Grande – Bairro Ribeirão dos Cruz

Pedro Maurício (cavaquinho), Aurélio Sota e Chico Inês (com a pé de bode, que aparece de canto).

Foto: TM- Maio de 1982

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Ribeirão Grande – Bairro Ribeirão dos Cruz

Nirdo (Nildo), mandador de fandango, Zé Franco (do bairro Ferreira dos Matos) e Elói Inês.

Foto: TM- Maio de 1982

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