Ecologia – “Meu rio, meu Tietê…”

“Meu rio, meu Tietê…” (1) 

Nesse dia, porém, deparou-se-lhe apenas um único dentre os arcanos do rio, e este lhe
abalou a alma. Viu que a água corria, corria sempre e todavia estava lá, ininterruptamente; era sempre, a cada instante, a mesma e todavia se renovava sem cessar!”      

Sidarta – H.Hesse 

Região dos Grandes Lagos, assim denominada no presenteconstitui-se, na verdade num grande emaranhado de caudais (Rio Grande, Parnaíba, Tietê), que ao se juntarem formam o Paraná, “o colhedor de águas”, “o que é semelhante ao mar. 
Nos últimos 50 anos, o olhar deitado sobre a região- norte, nordeste e sudoeste de São Paulo – foi
dominado pelos vieses econômicos, melhor seria dizer do desenvolvimento. Um grande conjunto de
barragens (2) foi sendo construído, dando origem a uma sequência de grandes lagos e canais de ligação.
Dotadas de eclusas e incorporando usinas de várias potências, formada por complexos energéticos de
vários portes.  

Mais que um simples caudal, um rio é um patrimônio, vivo, de um povo. Ajuda a escrever sua história guardando seus sonhos, suas lutas, sua alma. É sua própria história. Povoa suas existências de mitos, de lendas, de magia. 

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Sempre o mesmo, mas nunca igual, fita-os com olhos verdes, amarelados, cerúleos, pois que quando vivo, um rio vê. E canta, e fala, esbraveja, protesta, sussurra, acaricia. Esta é uma outra forma de olhar para nossos mananciais (fontes perenes e abundantes, que manam, correm incessantemente) como organismos vivos, e não como simples potenciais energéticos. 

Romaria nas águas durante o Revelando São Paulo Grandes Lagos – Foto: R. M 

Cada país, cada região tem um rio que a domina. E a encanta.  
Costuma-se dizer que o Egito é uma dádiva do Nilo. Assim está presente na história do povo egípcio. De forma indissociável. Os americanos têm o seu Mississipe. Os Europeus, o seu Reno, o seu Tâmisa, o seu Danúbio… 
Nós temos tantos. E em meio a estes, poucos, ou nenhum, teve peso histórico comparável ao nosso Tietê, reconhecido como “a grande estrada do sertão”.  
Neste primeiro Revelando Grandes Lagos, colocamos foco especial em “nosso rio”, aqui contemplado não só pelas lentes do econômico mas, sobretudo, pelas da complexidade. 

O Tietê selou a sorte do paulista, o seu destino, fazendo dele um desbravador – determinou a marcha para o interior do Estado e do Brasil, apressando a fixação do colonizador no interior. Possibilitou o alongamento de nossas fronteiras, alterando a configuração do mapa do Brasil. Desencadeou o movimento de colonização do interior, a contrapartida da colonização litorânea, como realçado por Basílio de Guimarães: 
Outro grande caminho da colonização brasileira foi o Tietê: de suas margens partiu o movimento
conquistador de todo o Sul, do Centro e do Oeste, ondulando-se, propagando-se seus efeitos por todo
 o sertão do Norte e do extremo Norte, em ajuda propícia e indispensável à irradiação dos criadores.”  
 Expansão Geográfica do Brasil até fins do Século XVIII

Por um desses caprichos da natureza, São Paulo é o único Estado que possui um certo número de rios que nascendo nos altos da Serra do Mar (portanto, a poucos quilômetros do mar), invertem espontaneamente seus cursos, de forma antinatural, e se encaminham em outra direção. 

É assim com o Rio Paraíba do Sul, que nascendo na mesma região do Tietê, diverge, envereda-se na  direção do Rio de Janeiro e Minas, atravessando todo aquele Estado, para, só então, lançar-se ao mar. 

De igual forma com os rios Grande, Pequeno, Capivari e vários outros de pequeno curso nascidos no Alto da Serra (na região do ABC), todos tributários do Tietê, e que deram origem à Billings. 

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Foto Região de Ilha

O Tietê é o único rio brasileiro que, nascendo próximo do Atlântico, desliza, preguiçosamente, definitivamente para o Oeste, com decisão de mergulhar no Paraná, seu grande mar, estabelecendo conexão de São Paulo com o Norte e com o Sul. São 1.100 km de jornada

Só então, depois de cumprir seu destino primeiro, segue incorporado no sentido Sul, destino ao oceano. Uma espécie de vaticínio, como sugere, poeticamente, Cassiano Ricardo: 
“Aquele sinal da natureza falava uma linguagem misteriosa. Nascido junto ao mar, o rio dava as
costas pro mar e lá se ia embora, como que determinando ao homem que fizesse o mesmo. Num
simples pormenor – entrar pela foz de um rio ou entrar pela nascente de um rio – podia estar uma
explicação muito grave para as coisas humanas. Assim como o destino histórico de certos povos foi
tirado da respectiva posição geográfica à beira-mar, que os fez navegadores, assim o paulista foi fixado
pelo seu rio, o Tietê que o fez sertanista e bandeirante.” 
Marcha para o Oeste  

E o paulista não titubeou: aceitou o convite que as águas lhe faziam e caminhou para o Oeste. Desceu o rio, subiu seus afluentes e foi criando povoados. Seguindo os ditames da natureza, desobedeceu os acordos de Portugal e Espanha, e ampliou as fronteiras impostas pelo tratado de Tordesilhas.  

Novidade? Evidentemente não. Antes deles os índios já conheciam bem o caminho do Oeste. Com suas ubás e igaras, estabeleciam ligação entre o Planalto e a Planície Paraguaia. Conheciam bem as dificuldades que a via do Tietê oferecia com algumas dezenas de saltos, cachoeiras e corredeiras. O bandeirante só fez seguir-lhes os rastos. O caminho já estava aberto. Já era conhecido. 

Os índios tinham o costume de dar nome às coisas ao seu redor pelas características ou peculiaridades que apresentavam. Deram, então, ao rio, o nome de Anhembi (Anhambi ou Anhambu). O rio dos nambus ou nhambus por causa da abundância dos nambus ou nhambus (pequenas aves) nas suas várzeas e nos campos de Piratininga. Ou rio da erva nhambi, bastante apreciada pelos índios. Ou rio dos veados, também numerosos em suas pastarias. 

Os primeiros colonizadores, primeiros paulistas, herdaram dos índios este seu costume, esta sua relação com as coisas, com seu meio. Consideravam o Anhembi o grande rio da região, o mais propício à navegação. Passaram a chamá-lo de Tietê (Ti = água, rio + exprimindo superlativo). 

Novas divergências sobre as explicações do novo étimo: madre ou mãe do rio, para uns; rio das tiés ou tiês (aves abundantes em suas margens), para outros; ou água corrente, volumosa, rio grande, reconhecendo-o como o maior da região e mais propício à navegação. Divergências etimológicas de lado, todas as explicações dão conta de um curso d’águas volumosas, extenso, importante para a manutenção de um ecossistema exuberante, rico em fauna e flora. 

Até um tempo em que a memória dos vivos costuma alcançar, pelas águas do Tietê, impelidas por remos ou varejões (grandes varas que os barqueiros pressionavam contra o fundo do rio), navegavam barcas e barcaças (os batelões) que serviam para o transporte de toda sorte de materiais, de areias e tijolos, a lenha, carvão, carne seca e farinha.  

Barcos a vapor (Visconde de Itu e Souza Queiroz), transportavam o café da região, de forma especial da Fazenda Porto, a maior produtora de café da região.  

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Em suas águas limpas, os clubes construíam cochos, verdadeiras piscinas flutuantes. As mulheres lavavam trouxas de roupas enquanto a criançada nadava.Hoje, a cultura popular e a religiosidade do povo se incumbem de reviver anualmente estes tempos de glória do rio, com suas Festas do Divino. Anualmente, os Irmãos do Divino colocam de volta nas águas seus batelões para os encontros das canoas. 

Época de festança como descreve Cornélio Pires, o grande poeta regional paulista e tieteense: 

Do Tietê majestoso, as margens silenciosas,
que pareciam ser inóspitas, desertas, 
parecem- nos agora alegres, populosas, 
e um sussurro de festa há nas casas abertas.
Onde pousa o Divino há folganças ruidosas 
entre o povo que traz, respeitoso, as ofertas…
Requebram no batuque as pretas mais dengosas
e saltitam no samba as morenas espertas.
Fremente, o cururu não falta no folguedo… 
ressoa pela mata o estrondo da roqueira,
assustando na grota a caça e ao passaredo.
E ao romper da manhã, à dúbia claridade,
nas canoas de novo, a comitiva inteira,
parte alegre a cantar em rumo da cidade.    
 A Festa do Divino em Tietê in: Musa Caipira 

    

Hoje, em todo o percurso da Hidrovia Tietê, podem ser identificados 18 polos regionais turísticos, com boa infra-estrutura, uma surgente cultura que poderá bem ser denominada “cultura barrageira”, bem como marcas dos imigrantes na culinária e nos usos e costumes, uma cultura de divisas,…
Águas que correm sempre ininterruptamente. Sempre,a cada instante, a mesma e todavia se renovando
sem cessar… 

Dia haverá, esperamos, em que cada um de nós voltará a ouvir as vozes do rio, de Salesópolis a Porto Ferreira/ Itapura, e novamente nos abandonaremos à sua vontade, repetindo como Mário de Andrade: 
meu rio, meu Tietê, onde me levas?  
Sarcástico rio que contradizes o curso das águas 
E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens, 
onde me queres levar?… 

  Meditação sobre o Tietê  

 Junho/93 – Agosto/2008 

1- Texto produzido originalmente em 1973, e refeito no presente. 

2- Entre as décadas de 50 e 60, deu-se início à construção de uma série de barragens ao longo dos rios Tietê e Paraná. Geração de energia e implementação da navegação para transporte- Hidrovia Tietê- Paraná, também chamada hidrovia do Mercosul (2.400 km de vias navegáveis) – construção prevista de terminais intermodais, com possibilidade de silagem com acesso ferroviário rumo ao porto de Santos. 

Seus números são vantajosos: área de influência de 76 milhões de hectares e uma meta de transporte, para 2010, de 20 milhões de toneladas (grãos, cana-de-açúcar, álcool, açúcar, calcário e outros produtos). Comboios de várias dimensões, no mais comum composto de 2 barcaças e um empurrador, medindo 137 m de comprimento, 11 m de largura, calado máximo de 2,50m, com potência instalada de 950 hp, velocidade média de 17 km/h, transportando, de uma só vez, 2200 toneladas, carga equivalente a 88 caminhões de 25 toneladas cada. 

E mais ainda, com vantagem no barateamento do transporte: para cada tonelada de soja transportada, são gastos 8 dólares na hidrovia, 16 dólares na ferrovia e cerca de 30 na rodovia, não podendo esquecer que as embarcações, ao contrário do que acontece nas rodovias, não estão sujeitas à mesma frequência de acidentes e desgastes acelerados.   

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