Ecologia – Dávida do Paraíba

Dádiva do Paraíba 

Banner Revelandos - Paraíba 2008

Piracuara em seu bote 

Rio Paraíba do Sul – São josé dos Campos 

Piracuaras, no geral, são os habitantes das beiras de rios. Em São Paulo, de forma especial, são denominados os moradores das margens do Rio Paraíba do Sul em seu curso médio. Conhecedores de seus meandros, e habituados às lides em suas águas, seja pescando ou contando com as bênçãos de suas cheias para o plantio de arroz em suas várzeas.  

Ainda é significativo o número daqueles que trafegam em suas águas, em simples botes de madeira ou em exemplares mais modernos de alumínio.  

Até mesmo em um contexto tão industrializado e urbanizado, como o de São José dos Campos em que, ainda hoje em dia, se entrecruzam os mais variados veículos numa verdadeira diacronia

Foto: Toninho Macedo. 
Arte: Felipe Scapino/T. Macedo 

“Nesse dia, porém, deparou-se-lhe apenas um único dentre os arcanos do rio, e este lhe abalou a alma. Viu que a água corria, corria sempre e todavia estava lá, ininterruptamente; era sempre, a cada instante, mesma e todavia se renovava sem cessar.” 

Sidarta – H. Hesse

Sempre o mesmo, mas nunca igual, o rio fita os homens com olhos verdes, amarelos, cerúleos, pois que quando vivo um rio vê. E canta, e fala, esbraveja, protesta, sussurra, acaricia. 

Cada país, cada região tem um rio que o domina. E o encanta. Costuma-se dizer que o Egito é uma Dádiva do Nilo. Assim está presente na história do povo egípcio. De forma indissociável. Os americanos têm o seu Mississipi. Os Europeus têm o seu Reno, o seu Tamisa, o seu Danúbio… 

Nós temos tantos. E entre tantos, o Nosso Paraíba do Sul. 

Por um desses caprichos da Natureza, São Paulo é o único estado que possui um certo número de rios que nascendo nos altos da Serra do Mar (portanto, a poucos quilômetros do mar) invertem espontaneamente seus cursos, de forma antinatural, e se encaminham em outra direção. 

É assim com o Rio Paraíba do Sul, que nasce na mesma região do Tietê, diverge, envereda-se na direção do Rio de Janeiro e Minas, atravessando todo aquele Estado, para, só então, lançar-se ao mar. 

Mais que um simples caudal, um rio é um patrimônio, vivo, de um povo. Ajuda a escrever sua história guardando seus sonhos, suas lutas, sua alma. É sua própria história. Povoa suas existências de mitos, de lendas, de magia. 

Ao contrário do destino inscrito em seu nome – “Parayba = o rio ruim, impraticável à força de dificuldades naturais da corrente” – o rio, outrora abundoso em peixes, propiciou o surgimento da figura dos piracuaras, (os habitantes das beiras, os que vivem do peixe) e sua cultura, em grande parte conservada. 

O Vale do Paraíba é composto por 35 municípios. Boa parte cidades centenárias, originadas de antigos aldeamentos. Sua importância histórica e econômica está suficientemente divulgada nos compêndios especializados. 

Importante centro de irradiação das bandeiras que recuaram as fronteiras do Brasil, ponto de passagem dos tropeiros que estabeleciam o fluxo Rio – São Paulo, Parati / Litoral Norte – Minas, o Vale do Paulista descobriu cedo sua vocação – ser traço de ligação de comunicação. Traço que se acentuou e mais se definiu com abertura de grandes rodovias e o advento da industrialização. 

Hoje, altamente urbanizado, industrializado e cosmopolita, o Vale está sintonizado, literalmente com o mundo, seja através das parabólicas e satélites da base do INPE (Instituto de Pesquisas Espaciais) em São José e Cachoeira, seja através da produção, exportação e intercâmbio de tecnologia de ponta. 

Paradoxalmente, e como que contrariando as teorias que pregam a incompatibilidade entre o rural e o urbano, o moderno, o progresso e a tradição, permanece, neste final de milênio, um dos principais redutos de tradições populares de São Paulo. 

Aqui se encontra o Santuário de Nossa Senhora aparecida, ponto de confluência de devotos e romeiros de todo o Brasil, que aqui aportam com suas manifestações de fé e cultura. Também é forte na região a devoção de São Benedito. Grandes e marcantes, suas festas aqui estabelecem um verdadeiro “Ciclo de São Benedito”, que se estende da Pascoela até meados de Maio, com suas cavalarias, congos e moçambiques. Também as graças e os dons do Divino se espalham por todo o Vale simbolizados pela multiplicidade de bandeiras em cortejos, na fartura de doces e comezainas, no fervor e esplendor de suas festas.  

Se de um lado está a riqueza e beleza de seus patrimônios históricos, aliadas ao seu diversificado e exuberante patrimônio natural imprimem-lhe um carisma natural para o turismo eco-cultural, por outro o desconhecimento ou o conhecimento relativo de suas potencialidades, a falta de estímulos às pesquisas e ao estudo, bem como a falta de decisão política fazem com que o Vale continue obumbrado a nível regional e nacional. 

E neste fim de século, fim de milênio, em que as comunicações encurtam as distâncias e aproximam os povos, nada mais urgente que revelar o nosso Vale, com sua vocação de integração. Revela-lo, com suas possibilidades, a nós mesmos e aos outros. 

É, dentro deste contexto que, acreditamos, reside a importância da realização deste encontro. O primeiro de tantos. 

Campos de São José – outono/95 

Milagre das águas  
Revelando São Paulo – Vale do Paraíba -São José dos Campos – 2008     

Diz-se que, 
mesmo antes de um rio cair no oceano, ele treme de medo. 
Olha para trás, para toda a jornada:  
observa os cumes das montanhas, lembra dos vales,  
do longo caminho sinuoso através das florestas,  
através dos povoados,  
e vê a sua frente um oceano tão vasto  
que entrar nele nada mais é  
do que desaparecer para sempre.  
Mas não há outra maneira.  
O rio não pode voltar.  
Ninguém pode voltar.  
Voltar não é possível na existência.  
Você pode apenas ir.  
O rio precisa se arriscar e entrar no oceano. 
E somente quando se despeja nele, é que o medo desaparece,  
porque apenas então o rio saberá que não se trata de sumir no oceano.  
Mas tornar-se Oceano. 

Cada país, cada região, tem um rio que a domina. E a encanta.  

Costuma-se dizer que o Egito é uma dádiva do Nilo. Assim está presente na história do povo egípcio. De forma indissociável. Os americanos têm o seu Mississipe. Os europeus o seu Reno, o Tâmisa, o Danúbio… 

Nós temos tantos. Entre eles o Paraíba do Sul.  

Ao se negar, por uma artimanha da natureza a seguir caminho direto para o mar (sua nascente principal, a do Paraitinga, na Serra da Bocaina, na região de Areias, encontra-se a apenas 35 quilômetros do litoral), como, no geral, é o destino dos rios, o Paraíba abriu caminho entre as Serras do Mar, do Quebra Cangalha e da Mantiqueira. Seu curso mais específico começa, ainda no alto da Serra do Mar da confluência dos rios Paraitinga (rio de águas claras), e Paraibuna (rio de águas escuras, turvas), no município de Paraibuna (SP), seguindo, inicialmente, a sudoeste, na direção do interior do estado, nos rastros do irmão maior, o Tietê. Porém, na altura de Guararema, já próximo à cidade de São Paulo, mais uma vez inverte seu rumo, e traça-se novo percurso. Escapa inicialmente a Leste, seguindo quase que paralelamente à sua nascente, e depois ruma a Noroeste atravessando o estado do Rio de Janeiro de Sul a Norte. 

São mais de 1.000 quilômetros até sua foz em Atafona (RJ), quando enfim encontra seu destino- o mar.  

Mais do que dividir, separar, um rio une. Junta. Agrupa em suas margens. Costura, rumo afora. Serve de rumo. Indica caminhos. 

A quem “pertence“ o rio que chega? E o rio que segue? 

O Paraíba segue sempre “preguiçoso”, sinuoso, um rio de várzeas abundantes e férteis com seus períodos de grandes cheias e vazantes. Várzeas verdejantes de arrozais inúmeros e outras culturas sazonais.  

Foi piscoso até a um tempo atrás, ensejando pesca importante por muito tempo. Em suas águas, bem  

como nas de seus inúmeros afluentes, abundavam bagresmandissurubinslambaristraírascurimbatás (crumatãs), piabaspiaus, papaterras, piabanhas,….  

Ao longo de seu curso, em suas beiras, foi surgindo a figura híbrida do pequeno agricultor e pescador de águas interioranas – o piraquara. (¹)  

Piraquara, segundo Silveira Bueno é vocábulo indígena que significa “toca dos peixes“, ou seja, loca. Do tupi 

 pira: peixe; e quara ou coara: buraco, cova, cavidade, esconderijo. Outra interpretação traduz como “comedor de peixe“, isto é, o pescador. De pira: peixe; e guara: comedor. 

Já Amadeu Amaral em seu Dialeto Caipira, aponta: piracuara, sm, designando o habitante das margens do Paraíba. (²) 

Quando vivo um rio vê. E canta, e fala, esbraveja, protesta, sussurra, acaricia. Quando vivo, um rio é um constante milagre: Sempre o mesmo, mas nunca igual, fita a paisagem com olhos verdes, amarelados, cerúleos. 

Mais que um simples caudal, um rio é um patrimônio, vivo, de um povo. Ajuda a escrever sua história, e por vezes a indus, guardando seus sonhos, suas lutas, sua alma. É sua própria história. Povoa suas existências de mitos, de lendas, de magia. 

Em meados de 1717, a comunidade de piracuaras na região de Guaratinguetá, recebeu uma incumbência ao mesmo tempo que importante, desafiadora. 

Havia chegado à região a notícia de que o Conde de Assumar, D.Pedro de Almeida e Portugal, o novo Governador da Província de São Paulo e Minas Gerais, iria passar pela Vila de Guaratinguetá, a caminho de Vila Rica. Era preciso hospedá-lo e sua grande comitiva, e prover alimentação condigna, em plena escassez de pescados. Assim sendo a Câmara Administrativa de Guaratinguetá convocou os piracuaras, pescadores, para que fossem conseguir peixes, já que o rio Paraíba era, então, responsável por parte da subsistência da população. 

Entre eles Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves saíram a procura de peixes. Rio abaixo e rio acima, e por mais que pelejassem nada conseguiam. Depois de muitas tentativas sem sucesso, chegaram ao Porto Itaguaçu. Ao chegarem, João Alves deu um lanço, e ao apurá-lo viu que a rede pesava, e não pelo pescado: nela veio o corpo de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, sem a cabeça. Na seqüência de lanços apanhou a cabeça da imagem. Viram que corpo e cabeça que se ajustavam. E isto só podia ser por milagre, e bastou para que os peixes passassem a bater nas redes dos três humildes pescadores. E encheram suas canoas em abundância tal que os mesmos temiam pela fragilidade de suas embarcações. 

Mal sabiam aqueles humildes piracuaras que, a partir daquele momento, suas vidas estariam, para sempre inscritas na história do Vale.  N ahistória do Brasil. Piracuaras: a eles devemos este milagre. 

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A Imagem encontrada, de terracota, medindo 40 centímetros de altura, em estilo seiscentista, hoje se sabe, foi seguramente obra de Frei Agostinho de Jesus ou de Frei Agostinho da Piedade, ambos monges beneditinos.Com uma série de detalhes estilísticos peculiares, a forma sorridente dos lábios, queixo encastoado, tendo, no centro, uma covinha; penteado, flores em relevo, nos cabelos, broche de três pérolas na testa e porte empinado para trás. Nossa Senhora da Conceição, desde o séc. XVII foi eleita padroeira da cidade de Lisboa e por extensão das colônias portuguesas. 

Esta é a imagem autêntica, a que foi retirada das águas do rio Paraíba, aqui desvelada durante a Cerimônia do Manto, realizada em 12 de agosto 2012 

– Foto: Divulgação do Santuário 

Os anos em que esteve imersa nas águas e no lodo do rio, e, certamente a fuligem das velas e candeeiros que expressavam a devoção que lhe foi devotada anteriormente, conferiram-lhe a “cor acanelada” que apresenta.  

Depois de “aparecida das águas” permaneceu por quase duas décadas nas casas dos piracuaras, seus primeiros guardiães, motivando-lhes rezas e novenas, encantando os seus dias, até que em 1735 foi-lhe construída a primeira capela no alto do Morro dos Coqueiros.  

Como o número de fiéis fosse cada vez maior, em 1834 deu-se início a construção de sua primeira basílica. A partir de então, o Vale do Paraíba preparou-se para se inscrever no rol dos principais centros de peregrinação no mundo: anualmente, aos milhões, os romeiros chegam, a pé, a cavalo, de bicicleta, de motocicleta, de ônibus, de carro, a sós ou em grupos, trazendo suas angústias, de esperanças e alegrias. De todas as classes sociais e padrões culturais. Muitos cumprem um ritual que começou com seus avós e persiste até hoje. Outros vêm pela primeira vez. Continuam a vir também os piracuaras, seus pescadores, em romarias fluviais. 

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A imagem, em sua forma piramidal  

Assim passou a ser reconhecida desde o final do Séc. XIX, com a coroa e o manto com que lhe presenteou a Princesa Isabel. 

A região conheceu vários ciclos econômicos desde o cultivo da cana-de-açúcar, seguindo-se a introdução da cultura de café, a pecuária leiteira, seguindo-se, por fim, sua industrialização, que se intensificou no médio-vale em meados do século passado. 

Sem os cuidados necessários a um manejo conservacionista, consciência que só se despertou recentemente, cada um deles ciclos contribuiu, a seu modo, para a contínua deterioração dos rios e degradação do ambiente como um todo. A queda da diversidade e da quantidade de peixes da bacia do rio Paraíba do Sul, é uma das conseqüências. 

De cada um deles ficaram marcas importantes na arquitetura, nos jongos e caxambus com os requebros inconfundíveis dos terreiros das fazendas de café, na vida pulsante das festas tradicionais de São Benedito (em nenhum outro lugar de São Paulo se festeja tanto o santo pretinho como no médio vale) com seus congos e moçambiques, do Divino,… 

Enquanto os técnicos do INPE vasculham os céus com seus satélites, em busca de informações precisas, e encurtam os caminhos entre os homens, os compadres se abordam nas estradas. Um montado no seu Volks ou em uma F1000. Outro pilotando o seu alazão ou sua palúzia. E param para um dedo de prosa. Prosa que dá conta do tempo bom ou mal, das soluções que vêm sendo encontradas para os problemas rotineiros dos seus dia-a-dias, dos últimos acontecimentos. Atualiza as informações que o rádio e a TV não trouxeram.  

Realizam negócios e alimentam amizade que o tempo consolida. 

Enquanto são aprimorados modelos de autos, aeronaves e mesmo veículos de tração mais pesada,  

os piracuaras trafegam livremente com suas pequenas canoas(³), pelo Paraíba, rio abaixo, rio acima. Cruzam por baixo das pontes e nas margens com carroças, charretes e mesmo carros de bois. 

Natural do Estado do Rio de Janeiro, o Paraíba, como dizíamos, fez parte de parte da minha infância e adolescência. Cresci num lugar em que, mais uma vez, o rio traça mais uma de suas grandes curvas, e por isso batizado de juparanã. Posso lembrar-me da alegria que senti quando, tantas vezes, ao ver o caniço sacudir ou vergar, meu pai dizia: vem uma piabanha. Ou: é um piau.  

E, hoje, piracuara por devoção, sigo assim “nessa água que não para, de longas beiras, rio acima, rio abaixo, rio afora, mas sobretudo “rio adentro”. E aceno, sempre, àqueles por quem passo, de acima e de abaixo, lembrando a todos a alma do rio. Do meu rio. Do nosso rio. 

Vale do Paraíba, Inverno 2008 

1- O termo ficou dormente junto às comunidades tradicionais do Vale do Paraíba, e junto às elites um termo pejorativo, até que em 1987 a Fundação Cultural Cassiano Ricardo criou um grupo de ação cultural, com o fito de estudar e divulgar as manifestações de tradição do Vale e de fora do mesmo, se auto denominou Grupo Piracuara. A intenção explícita era de valorizar a imagem dos ribeirinhos. A repercussão, de imediato, do trabalho do grupo e a reverberação de seu nome pela imprensa no médio vale e no âmbito da educação contribuíram para a retirada do piracuara da sombra social. 

Surgiram piracuaras por convicção, piracuaras por adoção, piracuaras por simpatia,… e o tema passou a freqüentar a mídia e a inspirar uma série de trabalhos no âmbito acadêmico e fora dele. 

2- É bom anotar que esta obra de referência foi publicada em 1920. 

3- Quando estivermos encerrando esta edição do Revelando, neste domingo 13 de julho, os piracuaras estarão se agrupando rio abaixo, rio acima, como fazem a cada ano, seguindo em visita à Senhora Aparecida das Águas. 

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