Ecologia – Billings Viva – Cap. 6

6- Pescador profissional- Braço do Rio Pequeno. 

6- Pescaria 

Em 1947, o inglês Turing declarava“os peixes constituem um barômetro muito útil do real estado de pureza de uma água. Nenhum corpo d’água pode ser considerado em condições satisfatórias se nele não viverem e proliferarem peixes”.  

(in: Produtos de Pesca e contaminantes químicos na água da represa Billings, São Paulo). 

“Os caras trabalham numa firma, na folga eles querem é passear, fazer um laeer, levar um peixinho para casa. É a melhor coisa que eles tem que fazer. É um divertimento pra eles”. (Gilberto)  

Se a pesca era tão do gosto dos antigos colonos italianos e dos que moravam nas adjacências da represa, este gosto estendeu-se a uma faixa muito maior e diversificada da população. Sobretudo depois do arranque desenvolvimentista da região a partir da década de 50, o número dos que buscam na Billings, e mais particularmente na pescaria, seu lazer multiplicou-se por alguns milhares. De todas as profissões e classes sociais. A quantidade de pessoas mexendo-se na orla da represa, vista de longe, mais parece um “carreiro de saúvas em dia de carrego”. De perto, a melhor imagem ficou registrada pelo comentário de um pescador:  

“Fico até vesgo de tanto vê as varinha’ subi e decê”.  

Pontos de acesso fácil e piscosos chegam a ficar congestionados (como a região próxima à Anchieta, à Prainha, do Bairro dos Fincos e o Alto da Serra).  

“É bom pescar! Ficar em casa fazendo o quê? Então vai tirar um lazer lá (na beira da represa). Esquecer um pouco o serviço. Peixe é bom com uma cervejinha, com uma caipirinha. Peixinho é bom a qualquer hora”. (Eduardo – morador do bairro dos Fincos)  

O paulistano José Luís, 34 anos, é pedreiro e nos finais de semana vem pescar. 

 “É uma higiene mental muito boa”.  

Cleide, sua mulher, acocorada dentro do carro da família, intervém: 

 “Para nós, que somos pobres; quem é rico tem condições de ir para outros lugares; a gente que é pobre … 

 ‘’Mas, atalhou Jorge, tem rico que vem aqui, médico, ete ..”. Quando voltam do ‘’rio’’ estão bem relaxados.  

“A pesca é o melhor. Eu, só de chegar aqui e parar o carro já me sinto bem”. Jorge, natural do Ipiranga, pesca desde criança. Com seu pai pescava no Eldorado até uns 20 anos atrás – “época que ainda dava peixe”.  

Ter pegado gosto pela pescaria acompanhando os pais, ou mais velhos em geral, parece ser uma constante entre os pescadores. Conversei com não poucos rapazes e senhores na faixa dos 20 aos 42 anos e que pescam na Billings desde crianças. Começaram vindo com os pais, familiares e amigos. Com o tempo passaram a vir sozinhos, ou trazendo outros acompanhantes. E continuam a pescar, hoje, acompanhados das famílias que constituíram.  

São também muitos que começaram a pescar quando ao passar pela região e vendo tanta gente à beira d’água, despertou-se-lhes a curiosidade. E começaram também.  

É o caso do e coreano “Lee” (quis identificar-se somente assim), que está no Brasil há 20 anos. Há 2, passando pelo Alto da Serra notou o movimento.  

“Comprei uma varinha de Cr$ 50,00, mas não consegui pescar nada.”  

Não tinha nenhuma experiência com a pesca, não sabia colocar a linha, a isca, o chumbo, a bóia. Hoje chega ao Alto da Serra, encosta seu Escort e prepara-se para a pesca da carpa, com seus molinetes e uma dezena de outros petrechos que ele mesmo foi criando.  

Parte destes ‘’pescadores’’ busca à beira d’água tão somente um cantinho que possa evae-los com seus caniços. E em certos fins de semana isto é quase impossível nos pontos de maior concentração. Preferem, por isto, chegar bem cedo, madrugada ainda, para garantirem melhores acomodações.  

Os que buscam tal lazer chegam a pé, de moto, de bicicleta, de ônibus ou de caminhonete. Trazem nas mãos um saco linha de plástico e um ou vários caniços de tamanhos variados ou apetrechos mais sofisticados como varas e molinetes importados. Como complementos, simples puçás (“coador”), samburás de arame para manter os peixes vivos na água e até maletas especiais com anzóis, iscas artificiais e outros que tais.  

Mantém-se em pé, sentados nas pedras, barrancos, em banquinhos ou em confortáveis cadeiras de alumínio à beira d’água, ou enfiam-se represa adentro, água pela cintura, não importando a roupa e o tempo, em busca da melhor posição para fisgar o peixe.  

Alguns chegam a nível de requinte bastante grande. Marcam um ponto para ceva e pagam o dono de um barco para eva-los, sós, para cevar (jogar comida, milho, batata, mandioca), ou para eles próprios – os barqueiros – cumprirem tal tarefa. É importante não revelar a localização a ninguém. No tempo certo, vão e fazem a pescaria, voltando com enormes carpas (dizem que geralmente são japoneses).  

Há os que preferem lugares mais isolados, tranquilos. Dirigem-se assim para as muitas ilhas que se formaram na represa, sobretudo no braço do Rio Pequeno. Para estes há serviços de transportes com barcos. O mais conhecido deles é o do Antão. Levam-nos pela manhã e marcam horário para o retorno à tarde. O barco vai passando pelas ilhas, pelos pontos desejados e “distribuindo” os passageiros/pescadores. A tarde volta para recolhê-los.  

Também junto ao Bar Flutuante (Estrada Velha do Mar) há um barco que presta o mesmo serviço. As saídas começam às 6 horas, com uma demanda, aos sábados e domingos, em torno de 200 pessoas. Alguns marcam retorno para o mesmo dia. Outros ficam para acampar, e já deixam marcado o retorno para o dia seguinte. Há passageiros para piqueniques. Mas a maioria vai mesmo para a pesca. Tanto pesca como acampamentos se dão nas orlas das ilhas.  

No Riacho  

Segunda feira é dia dos feirantes”. 

 É o que todos dizem. 

 “Vêm muitos feirantes. É o dia de folga deles e eles vêm de montão. Preferem pescar no Alto da Serra, na Água Limpa (depois da Balsa João Basso) ou mesmo aqui pelo Riacho”.  

Os minhoqueiros não trabalham nesse dia. Por isso os feirantes dirigem-se às lojas especializadas. Ao contrário do que se possa pensar, é pesca por lazer.  

Quem transita pela Anchieta ou pela Estrada Velha de Santos, nos finais de semana ensolarados, cruza  

com um grande número de carros com caniços amarrados nos bagageiros, em suportes improvisados ou mesmo enviesados em seus interiores. Indo para a Billings ou dela voltando.  

No fim da tarde, no sábado ou no domingo, forma-se um congestionamento de grandes proporções no trevo do Riacho. Estão pegando a Anchieta os que estão de volta da pescaria ou do dia de lazer no Riacho, no Alto da Serra, ou no Parque Chico Mendes Estoril. Quem faz os caminhos no contra fluxo, percorrendo a Estrada Velha do Mar no sentido serra ou mesmo a Rodovia Tibiriçá e estradas vicinais, verá um sem número de pessoas, homens e mulheres, adultos e jovens, a pé voltando para casa, caniços no ombro, e sacolas fartas ou minguadas de pescado. O mesmo pode-se observar até mesmo nas margens da Anchieta nas proximidades do Riacho e de São Bernardo.  

A pesca com tarrafa, apesar de proibida, é bastante frequente. Seu arremesso é facilitado pelo uso de botes, ou o pescador entrando direto na água. O resultado chega, frequentemente, a sacos de tilápias.  

O Peixe 

“Peixe é bom com cervejinha, com caipirinha… Peixinho é bom a qualquer hora”. (Eduardo)  

“Agora, depois de fritinho tem que ter um limãozinho em cima … uma caipirinha, uma gelada.   E manda ver”. (Gilberto).  

Nem todos têm paciência para a pescaria. Mas o deguste de um “peixinho fresco, pescado na hora“, fisga todos por um ponto muito fraco – a boca. E ainda por um traço da cultura universal: a comensalidade.  

Em toda a orla da Billings, mas, sobretudo no Riacho, todos estes elementos podem ser observados de forma aliada. Primeiro uma grande massa humana que sente comichões, o coração bater, enquanto espera – caniço na mão e anzol na água – os beliscões. E uma perda de fôlego ao primeiro puxão na linha. Dentre estes, alguns gostam exatamente disto: a emoção que a pescaria propicia.  

Muitos dentre estes não dispensam a complementação desta emoção com uma satisfação bastante ímpar: comer o peixe pescado com as próprias mãos.  

Algo equiparado a andar em um pomar, escolher na fruteira a fruta do agrado, colhê-Ia e degustá-Ia enquanto continua a caminhada por entre as árvores ou sentado à sombra de uma delas.  

Os primeiros, os que gostam de sentir o peixe na linha, buscam ampliar a satisfação da pescaria em si com a exibição aos próximos, parentes, amigos e vizinhos, do resultado da mesma. Sentem-se bem ainda em repartir com os mesmos o pescado, ou em convidá-los para compartilhá-lo à mesa.  

Os outros, os que gostam de pescar e apreciam o peixe, frequentemente não conseguem adiar o degustar para outro momento. Fundem os dois (pescaria e saboreio) em um só.  

Assim, muitas das pessoas que se dirigem ao Riacho, já vão munidas, afora os petrechos de pesca, de fogareiros à gás e frigideiras. Até mesmo de pequenas churrasqueiras a carvão.  

Então, pescaria e comensalidade se confundem numa enorme emoção de estar à beira d’água, com pessoas queridas, pescando e comendo.  

Esta ansiedade por consumir o próprio pescado, ainda na beira d’água, leva muitos rapazes a limpá-los, ali mesmo, de forma improvisada e a arranjar um jeitinho para que os mesmos sejam fritos nos quiosques ou barracas.  

Há uma terceira categoria de apreciadores de peixes: os que preferem pura e simplesmente saboreá-los. Principalmente na companhia de amigos. Estes buscam na região da Billings uma satisfação extra: saboreá-los em um dos muitos bares e quiosques que ali surgiram, há bastante tempo, com a sensação de estarem consumindo peixe fresquinho, fisgado ali mesmo, pela janela do bar e passado diretamente para a cozinha. E desta para a mesa. Mesmo que saibam, no fundo, ser isto ilusão. Uma gostosa ilusão regada a cerveja e caipirinha.  

Estes são chamados, pelos que trabalham no ramo, de turistas. Quando frequenta dores assíduos,  

de fregueses. Para atenderem à demanda de turistas e fregueses estabeleceu-se na região uma pesca, profissional, mas não muito expressiva. Entregam nos bares especializados parte do produto necessário: tilápias; lambaris, traíras e às vezes bagres; nos botequins e quiosques a tilápia; em suas casas, ou em pontos, vendem “peixe fresco”.  

Entretanto, grande controvérsia tem causado o consumo do peixe capturado na Billings. Mas nem de longe os “debatedores” podem imaginar o que acontece ao redor da represa no que diz respeito à pesca com caniço, de manhã, de tarde e noite adentro. Reina sempre um clima de suposições. É inacreditável, mas real. Tem-se discutido tanto a poluição da Billings (e por vezes em termos quase catastróficos) e não se realizou, no presente (1991) nenhum estudo sobre a propriedade, ou não, do peixe capturado na represa para o consumo.  

Consultei alguns organismos oficiais (Cetesb, Instituto Adolfo Lutz…)  já haviam procedido algum exame de vísceras e de tecidos de tilápias ali capturadas, tendo em vista a viabilidade de consumo. A constatação foi triste: ninguém fez nada. Ou porque não se pensou, ou porque não era de competência, ou porque… (11)  

Enquanto isto, no Riacho as pessoas têm suas opiniões, de teores variados.  

“A pesca hoje decresceu. É mais um esporte. O peixe quase não se aproveita, é um peixe sujo. Hoje ocorre o seguinte: quando chove bastante, a represa fica limpa vários dias, mas depois ela começa a sujar de novo”. (N. Rosa)  

“A Billings todo mundo já sabe, porque deu no reporte, fica sempre poluída. Mas o peixe daqui não faz mal pra ninguém. Senão já tinha muita gente morrido. Eu mesmo pesco, tenho 3 filhos – um de 2 anos – e a coisa que ele mais adora é peixe. Logo que eu chego ele diz: ‘Pai, quero peixe’. E nunca meu filho ficou doente, graças a Deus. No Alto da Serra também é Billings e a água é mais pura. Já não vai água poluída”. (Gilberto)  

Acrescentem-se a elas outras idéias que os moradores do Riacho fazem sobre o peixe, e o equilíbrio/desequilíbrio de espécies nas águas dos rios e represas da região, e incorporados em vários momentos deste trabalho.  

Igualmente não tivemos notícia de nenhum estudo oficial recente a respeito da população de peixes, de espécies, como vem reagindo… De forma resumida, e sempre tendo em vista os conhecimentos dos que estão lidando diretamente e de forma intensiva com a pesca na região, parece-nos que a população atual se distribui assim:  

• Traíra (Hoplias malabaricus)  

Espécie nativa. Peixe bastante apreciado especialmente pelos oriundos do Riacho. É pescada com anzol, “sobretudo depois que escurece“.  

             “À noite ela vem barranqueá pra procurar peixe (alimento)”.  

Então é capturada com iscas de lambari, rãzinhas, moela de galinha e até pedacinho de tilápia. Não é peixe muito procurado por turistas nos bares. Acham-na espinhenta. Os da terra, ao contrário, acham-na mais saborosa. Como a grande maioria dos pescadores está em busca de lazer, não se interessa ou mesmo nem tem conhecimento deste peixe e de como pescá-lo na represa. Há formas inusitadas de captura de traíra, já descritas neste trabalho (com facão, com a mão).  

Conta-se que por volta de 1985 houve grande estiagem e a represa secou muito. Ficou um filete de água. As traíras foram se alojando na lama. Com o sol, a lama esquentou e elas ficaram ariscas. Então entravam na lama e matavam-nas com pequenos porretes.  

            “Eram sacos e sacos de traíra. Ainda tem muita nessa represa“.  

Mesmo perto do Botujuru, na parte em que o córrego dá fundura, chegam a pescá-las de “até quilo ou quilo e meio”. (Irernar),  

  “No 45 (km 45 da Anchieta) até uns 2 anos atrás eu pegava traíra de até 2 quilos. Mas hoje não tenho   pescado mais. (Pedro).  

Traíra depois de limpa e temperada a gosto, pode ser frita, ou “no forno” (assada) se for grande.  

• Lambari (Astynax bimaculatus)  

Espécie nativa. “Ainda tem muito lambari“, dizem vários pescadores. “Não do lado da Billings, que tá poluído. Mas do lado da Sabesp (o braço Rio Grande) que é essa água que nós bebemos”, completam outros.  

A bem da verdade nunca vi um lambari sendo pescado ou já capturado por onde andei na orla da Billings. Mas devem pescá-Io, pois nas lojas especializadas continuam a vender o “macarrãozinho” que é uma de suas iscas.  

As outras são a massa de pão e a minhoca. É pescado com caniço e anzol miudinho. Entretanto é pescado mesmo com rede ou tarrafa. Em alguns pontos do braço Rio Pequeno, dizem que conseguem capturá-lo de forma abundante, mesmo com caniços. É peixe bastante apreciado como petisco, sobretudo para acompanhar a cervejinha. Sempre frito, torradinho.  

Dizem que é melhor capturado em noites escuras. É peixe arisco, e em noites claras (lua cheia) facilmente escapa da rede. No bar Flutuante, consomem em torno de 50 kg de lambari por fim de semana. Parte dele ”puxado” do Rio Pequeno. Outra parte puxada da represa de Salesópolis, onde “estão pegando bem”.  

Era peixe bastante apreciado pelos antigos, que o capturavam nas águas do Rio Grande.  

• Tilápia rendalli, (T. Melanopleura)  

Espécie exótica. 

Antigamente não existia essa tilápia do Nilo na represa. Havia s6 tilápia comum (rendalli). Esta  praticamente desapareceu. Pelo menos do lado de cá (lado oeste). De vez em quando a gente pega uma. A tilápia do Nilo é mais bruta e come os outros.” (12).  

As tilápias comuns eram menores, e davam bastante onde tinha capim na beira da represa. As do Nilo crescem mais e se multiplicam rápido. Chegam a ser pescados exemplares com 700 a 800 g de peso.  

Mas o cara tem que sabê pescá pra pegá as grandes.”  

Foi importada do ex-Congo Belga (Zaire) e introduzida na Billings em 1953.  

Para sua captura é empregada linha de bitolas 0,30 e 0,40 mm e anzóis pequenos (14 a 16).  

É pescada em qualquer profundidade. Mais à tona, é melhor.  

Suas iscas são capim, erva doce e iscas artificiais. Já a tilápia do Nilo apresenta maior desenvolvimento podendo chegar a 35 em e 2 kg. É herbívora, mas ataca qualquer tipo de iscas: capim, erva-doce, milho, massa, minhoca, guaru (peixinhos de beira d’água), larvas, formigas, cupim, insetos. Segundo Adauto, as iscas para tilápia têm temporada:  

       “Tem época que só dá na minhoca. Outra só no capim“.  

E assim vão tentando, experimentando. Não sabem explicar porque isso acontece.  

Quanto ao consumo, ao contrário do que possa sugerir sua aparência a tilápia é de fácil preparo. Para limpá-la começam cortando a “serra” e as nadadeiras. Alguns preferem fazê-la munidos de uma tesoura velha. Corta-se fora a cabeça e retira-se a barrigada. Pega-se a ponta do couro e puxa-se no sentido da cabeça para a cauda. Sai inteiro. Primeiro um lado. Depois o outro. Tilápia é peixe de escama e couro. Mas não deve ser escamada. Dá muito trabalho e faz muita sujeira. Solta escama para todo lado. Além disso, o couro tem gosto de barro. Depois de limpas, parecem porquinhos (peixe do mar). Lavam-nas com limão ou vinagre para tirar uma espécie de limo de dentro dela.  

Temperam a gosto (sal, limão ou vinagre, alho, pimenta do reino). Se quiser pode ser consumida na hora. Sempre frita. Mas é bom deixar uns dois dias no tempero. Pega mais gosto. Há os que preferem-na em filé. Mas filé, só das grandes. Depois de limpas, passam a faca longitudinalmente, rente à espinha. Sai inteiro. Isto facilita o deguste. Outros preferem-nas inteiras por serem de melhor paladar ou por dar mais graça. Para estes, em filé ela perde o gosto.  

“O filé não dá trabaio, mas eu já gosto de ver o trabaio, senti o sabor da danada”.  

Nos bares, botequins e quiosques é servida frita inteira e frita em filé. Até espetinho de filé de tilápia.  

Para se ter uma ideia de seu consumo, tomemos como exemplo o Bar Flutuante, um dos vários especializados em peixes na região: uma frequência de 1.200 pessoas por fim de semana. De início só serviam peixes da represa (tilápia, traíra, lambari). Aos poucos foram introduzindo outros, do mar, inclusos.  

De todos, o mais procurado é a tilápia. Consomem-na em forma de filé ou iscas (o filé cortado em tiras). Como há muitos japoneses e mesmo pela demanda de turistas, passaram a oferecer sachimi -tilápia cortada em iscas pequenas, consumida crua com shoyu (incorporado de forma permanente aos temperos de mesa no bar).  

Entram, por fim de semana, 600 kg brutos de tilápia, que se convertem em 120kgde filé e iscas. “Somente 10% a gente puxa da represa. O restante a gente puxa de Guaraci (divisa de S. Paulo e Minas), por ser um peixe mais graúdo, fornecendo filés maiores”.  

Ao contrário do que se pensa, a tilápia não é espinhenta (espinhuda, dizem). Antes de fritá-Ia passam-na na farinha “ou em fubá. que seja. Que assim não gruda na frigideira“. E o peixe não desmancha.  

• Carpa (Cyprinus carpio)  

Foi a primeira espécie alienígena a ser introduzida (1948) na Billings pelo antigo Serviço de Piscicultura da Light. Peixe originário da Ásia, onde é bastante apreciado e sua cultura muito antiga. De lá foi traz ida para a Europa e Américas. Vive em águas paradas e lodosas, com bastante fundo. Passa o inverno enterrado no lodo. Seu crescimento é lento, chegando ao estado adulto em 2 ou 3 anos. Com 6 anos pode pesar até 4kg. São resistentes e longevos podendo chegar a l ,50m ou mais, pesando 20 a 30 kg.  

Jorge Luís nos informou que na Billings existem 2 tipos de carpas: a japonesa e a alemã. Aquela é branca. Esta é pintada e costuma ser maior. No começo de maio Jorge pegou uma alemã de 8 kg.  

São muitas as notícias de carpas maiores. Cheguei a ver fotos (pescador adora foto).  

             “Mas depende da sorte do pescador”.  

Segundo os pescadores,  

dá carpa em vários pontos da represa, sobretudo no Alto da Serra, no Rio Pequeno, e passando a Balsa. Também no km 40. Mas tem que fazer a ceva dela. Marcar o ponto em que é pescada e ali jogar mandioca, bata ta doce, pão velho. Elas fica sempre comendo e você vai ali bate a ceva”.  

Para quem gosta mesmo de pescar, dizem ser a melhor pescaria. Mas tem alguns segredos. E talvez por isso ela seja mais emocionante.  

O primeiro segredo é a isca: massa de batata doce com açúcar. E este tipo de isca não é comercializado. Cada pescador prepara para si (o preparo é descrito à frente). O segundo diz respeito ao anzol. Ou melhor, aos anzóis, pois em cada linha devem ser amarrados 3 anzóis (n” 6) de tal forma que ao serem ocultos no interior da bola de massa de batata se armem como uma âncora de 3 pernas.  

“Isto se deve ao fato de a carpa possuir ‘‘boca mole”, correndo sempre o risco de “rasgar-se” se fisgada por um único anzol.  

É pesca de espera. Por isto os pescadores iscam várias linhadas e deixam-nas armadas. Os mais humildes preparam varetas com vergalhão com aproximadamente 1 metro. Em uma das extremidades põem de lado um pequeno gancho e no topo uma proteção feita de um pequeno pedaço de borracha, pneu velho. Espetam vários destes, em seqüência, no ponto de pesca. No ganchinho põem um sininho. Iscam o anzol e arremessam-no o mais longe possível na água, com giros vigorosos da linhada. Passam a linha por uma pequena fenda na borracha (que funciona como um breque) e depositam a latinha em que a sobra da linha está enrolada ao pé de ferro. Depois de todos os dispositivos estarem arrumados, é só sentar e esperar.  

             “É pescaria de paciência”.  

O peixe fisga-se e o sino balança. Então, ao primeiro toque do sininho a correria é geral.  

Os de mais posses substituem a linha da (linha enrolada na Ia tinha) por molinetes. Mas não prescindem dos sininhos.  

Carpas fisgada, é a vez do último segredinho: Não se deve puxá-la para fora; deve-se “cansá-la”. “Se pede linha”, isto é, se resiste, deve-se dar folga na linha, soltar linha, dar linha. E vai recolhendo aos poucos. Assim o pescador vai acompanhando seus movimentos e trazendo-a para a borda. Geralmente são recolhidas a 80 ou 100 m do local em que foram fisgadas, Dependendo do tamanho. Ao chegarem próximo à borda são recolhidas com o coador (puçá).  

É capturada sobretudo no frio (nos 4 meses sem ”r”). Gilberto diz que também já pescou muitas. A maior que viu pescada pesava em torno de 20 kg. Os donos do Bar Flutuante já viram muita carpa grande. Mas dizem que muitos pescadores acabam soltando-as, pois não apreciam seu paladar.  

Dizem que tem um gosto forte de barro. “Aí vai muito do cuidar dela“, diz Jorge Luís. Segundo Cleide, sua esposa, quando a carpa é grande deve-se fazer um corte na altura de sua nuca e puxar um filete preto que fica no dorso. Aí pode assar ou fritar.  

O tempero “vai do gosto de cada um. Eu uso alho, sal e limão”.  

Não muito pra não tirar o gosto próprio do peixe. Se vai assá-Ia acrescenta cheiro verde, cebo Ia e toma te (este para que o peixe não fique ressecado). Para fritar, deve-se cortá-Ia em postas. E o tempero é alho e sal. Entre carpa, bagre e tilápia, ficam com carpa. ”Mas os 3 é gostoso“.  

Muitos, depois de limpá-las e livrá-las dos ditos filetes escuros do dorso, põe- nas em uma bandeja com leite e deixam-nas curtir pelo menos 2 dias na geladeira. Assim é que temperam-nas. Então ficam gostosas.  

Fritas ou assadas. “Grandona é assada“.  .  

Dizem que aprenderam com japoneses. 

 “Quem sabe mesmo é a japonesada“. 

 Idêntico processo de tratamento para retirar o pitiú (cheiro forte) de certos peixes registrei junto aos pescadores caiçaras no Litoral Sul Paulista. Também afirmam ter aprendido com japoneses.  

• Outros peixes  

Há peixes que hoje são mais dificilmente capturados, e os pescadores não sabem dizer por que. Muitos deles afirmam que foi a tilápia que acabou com eles.  

Entretanto é fácil constatar que a tilápia é mais resistente à poluição do meio. Portanto são encontráveis em toda a extensão da represa. Os peixes que relacionaremos, incluindo-se a carpa, s6 são capturados nos braços ainda não comprometidos da Billings (Rio Pequeno, Capivari, Rio Grande).  

• Bagre (Rhamdia sp)  

Espécie nativa.  

Ainda são capturados, sobretudo no braço do Rio Pequeno. Mas, em geral, não muito grande. Com sorte o pescador pode chegar a fisgar um exemplar de 1 kg. Mas não mais. É mais facilmente pescado na “espera“. Portanto exige paciência. Creio que por isto fica mais difícil ser capturado pelo pescador de tilápia, geralmente mais afoito devido ao alto índice de população da espécie na represa.  

Muitos pescadores de carpa iscam algumas das linhadas com minhoca para capturar bagres. Assim observamos no Alto da Serra e no Rio Pequeno.  

Frequentemente estes são o consolo para os que não conseguiram a carpa que esperavam.  

Suas iscas são a minhoca e a tripa de galinha, e o melhor horário para sua captura é a boca da noite. Gostam de consumi-lo frito.  

• Cascudo – (Plecostomus sp)   

Espécie nativa. É raramente capturado, talvez pelo fato de não ser pego no anzol. É peixe de lodo e fica sempre no fundo. “Só sai na rede ou tarrafa. Sobretudo tarrafa“. O uso destas está proibido na represa. A outra forma de captura é a “cata“, apanhá-lo com as mãos nos baixios, nos rasos. Mas é atualmente pouco praticada. Apreciam-no frito ou ensopado. Segundo alguns pescadores no Bairro Represa, no Cata Preta em Santo André, ainda são capturados com certa abundância. Mas não pudemos constatar.  

• Caborje  

Espécie nativa. Pouco se houve falar deste peixe. Iremar costuma pescá-lo no córrego que atravessa o braço assoreado da represa, no Botujuru. Próximo ao ponto de deságue. É pescado no anzol, com minhoca, dizendo ser cascudo. Exatamente por isto Maria do Pedro afirma categórica:  

                  “Isto não é cascudo. É caborje, da família do cascudo; cascudo não pega no anzol”.  

Sua forma dicionarizada apresenta-o como “peixe de pântano“.  

Os irmãos Ventura e Moreira da Silva mostram-se bastante familiarizados com o mesmo. Também fazem relação dele com o cascudo.  

E confirmam:  

É peixe que anda sempre rasteiro, pelo fundo. É o peixe mais resistente da represa, Pode ficar até um dia fora d’água. Também é o último que poderá morrer pela poluição. Os primeiros são o bagre e o lambari”,  

No dia 31 de maio haviam pescado vários deles no Alto da Serra, perto da Ponte do Rio das Pedras. Visualmente o caborje aparentou-se-me com o bagre. Possui os “bigodes” do bagre, e a cor aproximada do cascudo. É peixe de couro, parecido com os chamados “limpa fundo” dos aquários. Podem chegar a 1 kg, segundo os irmãos Ventura.  

              “Mas os que são pescados por aqui chegam a 400 ou 500 g., no máximo”.  

É também conhecido por camborje ou caborje.  

• Cará (Geophagus sp)  

Espécie nativa. Peixe bastante apreciado pelos antigos até os idos de 50. Dizem que dava nas grandes águas da região. Mas desapareceu. De quando em vez pegam algumas muito pequenas que tornam a soltar. Atribuem seu desaparecimento ao “avanço” da tilápia do Nilo.  

• Piau (Leporinus copelandi)  

Peixe de coloração amarelo avermelhada. Parecido com piaba. É peixe de porte médio (3 a 4 kg) e de carne apreciada. Não ouvimos nenhuma referência ao mesmo na represa.  

Entretanto, no dia 12.5, enquanto acompanhávamos a pesca da carpa no Rio Pequeno e Alto da Serra, eis que o sino de uma das linhadas do Jorge Luís começa a balançar. Ao ser recolhido o pescado, para minha surpresa, tratava-se de um filhote de piau de aproximadamente 300 g. Para Jorge Luís e os demais foi uma captura normal, denotando certa familiaridade.  

Acredito que, como esta, outras surpresas a Billings poderá estar nos reservando.  

• Saguiru  

Peixes de porte pequeno que habitam tanques, rios e arroios. Andam sempre em grandes cardumes. Não atacam iscas em anzóis; portanto, só podem ser capturados em redes ou tarrafas. Há certa variedade deste espécime considerado bastante rústico e boa isca para peixes carnívoros. Na Billings são capturados pelos lados do Cata Preta em Santo André.  

Não consegui presenciar sua captura. Adauto o descreve como “parecido comi um lambari, só que mais gordo e mais escamoso”,  

Afora estes, pelos relatos dos antigos moradores, ficamos sabendo da existência outrora da Piaba – também conhecida por piava (Leporinus Spix) – e da Tabarana (Salminus Hilaris). Não tivemos a menor indicação de sua presença na represa hoje.  

Iscas 

              “Tem peixe que não gosta de dar gasto pro pescador. Com uma minhoca só. pega 3 ou 4 peixes”.  

(Moacir Moreira da Silva)  

Já na saída do trevo de acesso à Anchieta, nos finais de semana e feriados, pode-se ter uma ideia da importância que a pesca passou a ter para o Riacho Grande.  

Dezenas de pessoas, crianças e jovens homens e mulheres oferecendo aos que chegam, iscas para a pescaria. Acondicionadas em copinhos plásticos, latinhas ou em saquinhos. As lojas de produtos de pesca expõem os caniços em barricas, nas calçadas, onde algumas constumam também colocar bancas de iscas.  

Os pescadores aficionados usam fixar 2 ou 3 anz6is em cada linha, com uma distância aproximada de 30 cm entre cada um. Em cada um colocam um tipo de isca (bigato, minhoca, milho, tripa… ). Se o peixe não vai numa, vaiem outra. Assim ficam sabendo qual a isca que está sendo mais aceita naquele ponto e naquele momento. Muitas vezes costumam fisgar 2 peixes ao mesmo tempo, um em cada anzol.  

Há iscas para todo tipo de peixe. Mas, sobretudo para cada tipo de pescador. Das mais tradicionais às mais inusitadas. Vejamos:  

• Minhoca  

É sem dúvida a mais popular, a mais usual e mais comercializada. Dadas as características do solo na região é muito fácil encontrar minhocas. Não dá trabalho: é cavar, recolher e comercializar. Muitos preferem colhê-las e vendê-las “no atacado“, para as lojas, acondicionadas em galões usados de tinta, com um pouco de terra. Chegam a vendê-las assim para os vendedores ambulantes de iscas. A esta operação chamam entregar ou fornecer. Os que comercializam-nas, mantêm-nas em bacias velhas, ou já acondicionadas em copinhos. Sempre com terra úmida. Ao servirem o cliente, viram a porção na palma da mão para que o mesmo observe a qualidade e condições do produto (tamanho das minhocas) e que estão vivas.  

O copo de plástico (de 100 ml), a 2/3 de seu volume, inclusa a terra, é uma medida. Muitos, depois de a mercadoria ser escolhida pelo freguês, viram-na em um pedaço de jornal para os copos não serem levados para a beira da represa.  

É a isca de maior saída, pois serve para todo tipo de peixe. “É melhor pois é isca viva e atrai mais o peixe“.  

Muitas crianças de 7 ‘a 10 anos cavam baixios e barrancos com pequenos enxadões e recolhem minhocas. Chegam a vender até 40 copos por fim de semana.  

Os moradores da região e até muitos dos pescadores que vêm de fora preferem eles mesmos colher suas minhocas. Diz-se “arrancar minhoca”.  

• Bigato  

Isca também bastante comercializada. Pertence a um “time” de iscas a que denominam bicho. Frequentemente dizem somente bichinho quando se referem a ele. Aconselham-no para a pescaria de tilápia, sobretudo da tilápia comum. “É bicho de lixo. Mas é bicho limpo“. Alguns o chamam de bicho de frutas, pois o cultivam com restos de bananas e laranjas velhas. Outros, bicho de lixo. 

Gilberto Aparecido Vitorino vende iscas no Riacho há 14 anos. Seu pai vai buscar bigato fora para abastecer as lojas do Riacho. Pra ganhar um pouco mais vem vender direto para os pescadores aos sábados e domingos. E afirma:  

“O bigato dá em qualquer lugar que tenha sujeira. Até no cocô da galinha. Só que é limpo, não dá doença em ninguém”.  

Seu pai recolhe bigato em uma granja perto de Sorocaba, em lixo de laranja, próximo a Limeira, e em lixo da banana, em Santos.  

“Vai lá, pega e entrega nas lojas”.  

• Larva ou larvinha  

Raramente comercializada, faz parte das iscas conhecidas por bicho ou bichinho. É também conhecida por bichinho de pão. Quando utilizada, o é por pescadores da própria região. 

 Muitos destas a conhecem por lavra.  

Eduardo… Quando não pesca com minhoca, prefere pescar com larvinha: “É mais limpo, mais higiênico“. Há uns 4 anos ganhou de um colega seu, da família Bísognini, meio copo de larvas. Fez uma caixa em forma de cubo, com mais ou menos 30 em de lado, com tampa, e ali dentro soltou-as.  

Juntou uns 2 dedos de farelo para porcos e alguns pedaços de pão velho. Por sobre tudo, alguns flocos de lã ajudam a manter o calor. Na tampa da caixa, um pequeno furo (respiradouro). Tudo muito seco. E as larvas não param de se multiplicar. Fazem labirintos nos pedaços de pão. Quando se abre a tampa da caixa, procuram afundar no farelo, fugindo da luz e buscando mais calor. Ali dentro algumas viram besourinhos. E estes não servem para pescar. Só garantem o ciclo.  

• Brigite  

Também muito conhecido, mas pouco comercializado. Branquinho e mole é a larva da mosca varejeira. É criada no lixo de peixe ou em restos de comida. Costumam juntar as cabeças das tilápias para a sua produção.  

“Jogando o peixe ou a comida no lixo e ali deixando de 3 a 7 dias, fica tudo cheio de bichinhos”.  

• Tripa de galinha  

Isca bastante procurada. Sobretudo por quem quer pescar tilápia do Nilo. Costumam pegá-las nas granjas de SBC. Cortam-nas. Limpam-nas e acondicionam-nas em saquinhos plásticos. Alguns, poucos, acondicionam-nas em copinhos plásticos, misturadas com fubá. O fubá ajuda a atenuar-lhes o cheiro.  

• Milho  

O milho verde é amplamente comercializado. Sobretudo nas bancas das casas especializadas em pesca. Os grãos são cortados e acondicionados em saquinhos plásticos. Podem, com menor frequência, ser vendidos ainda em espigas. O segredo é que o mesmo deve estar em ponto de ligeira fermentação, “cheirando a azedo; é o cheiro que atrai o peixe”. É utilizado na pesca da tilápia e do acará, como também do lambari. Mais ainda para fazer a ceva.  

• Macarrão  

Os pacotes pequenos são vendidos nas casas de pesca. O pescador o ferventa e deposita em uma vasilha para esfriar. É só colocar no anzol e puxar o lambari. Não é isca muito usual.  

• Barata  

“Foi invenção da japonesada; eles é que arranjaram isso. E está vendendo direto. Mas veio de  fora”.  

São criadas com restos de cenoura e verduras dentro de uns tambores de plástico, cujas bordas são untadas com graxa para evitar-lhes a fuga.  

               “Produz muito. É ir tirando e vendendo para os pescadores“.  

Só as lojas produzem, porque dá muito trabalho.  

Nós não fazemos porque se for fazer uma coisa e outra, não atendemos nem os fregueses nas iscas. Por isso é mais nas lojas. E também há fornecedores de baratinhas para as lojas”. (Gilberto A Vitorino)  

• Funcho  

Os ramos da erva doce, também conhecida por funcho, chegam a ser comercializados, como iscas, nas bancas de casas do ramo. Mas é de consumo restrito. São utilizados mais por japoneses para a pesca de acará e tilá pia. “Mas os brasileiros também estão aprendendo“. Com pontas de ramo fazem um pequeno 

 nó frouxo, que se coloca no anzol. E pronto: o peixe chega.  

Há ainda outras iscas, que não são comercializadas – seja porque têm consumo restrito, seja porque têm um preparo mais trabalhoso e/ou dispendioso.  

São geralmente preparadas pelo próprio pescador, para uso exclusivo. Algumas chegam a ser sofisticadas e atestam o gosto pela pescaria.  

• Massa de batata doce  

É a principal isca para carpa. Cozinham a batata doce e a esmagam. Juntam um pouco de açúcar, e vão amassando tudo com farinha de mandioca crua. Depois de pronta, fazem com a massa uma bola no formato de uma pequena coxinha em torno da linha. Por fim, fazem-na deslizar até o conjunto de 3 anzóis, escondendo-os em seu interior.  

• Massa de pão  

Muitos pescadores pegam o miolo do pão, apertam bem, até ficar massa compacta. Vão tirando pedaços minúsculos e pondo no anzol.  

É boa para pegar lambaris.  

• Lambari  

O lambari, por sua vez, é tido como excelente isca para a captura de traíras. É pescar o lamba ri num anzol e colocar em outro maior. É utilizada desde “o tempo dos antigos“.  

•   

Igualmente o filhote de rã, ou mesmo a rã em pedaços é utilizada na pesca da traíra. Quando pequena, é colocada viva no anzol: “É soltar na água e a traíra bocá“. Mas tem que saber pescar.  

Os minhoqueiros 

“Tem lugar pra todo mundo aqui. Nós num manda aqui”. 

Uma grande oferta, é óbvio, é alimentada por uma grande procura. O Riacho situa-se num ponto estratégico (trevo Anchieta/Estrada Velha de Santos), passagem obrigat6ria para a maioria dos que vão pescar na Billings. Tornou-se, em consequência, ponto de abastecimento.  

“Os que vem (para o alto da Serra) já trazem iscas do Riacho. O Riacho tem um pouco de tudo”. (Márcia, do Bar Flutuante – braço Rio Pequeno da Billings).  

Os vendedores de iscas chegam aos pontos de venda em torno das 5 h da madrugada. Quando o tempo está bom, às vezes antes do meio dia já estão indo de volta para casa. Num dia de sol e sem vento chegam a vender até 100 copos de iscas. Até mais. Chega, por vezes, a faltar mercadoria.  

Quando começa o ”tempo frio“, cai a pesca. São 4 meses de movimento fraco (maio a agosto). Setembro retoma. “Pescaria mesmo só nos meses que tem “r”. Nos outros meses nós vendemos menos. Mas ainda dá pra viver’. No “tempo frio” chegam a vender 30 a 40 copinhos entre sábado e domingo. Em compensação, durante este tempo o número de vendedores de iscas cai sensivelmente – os minhoqueiros eventuais param de trabalhar.  

Quando é calor é muita gente vendendo; que a gente não pode botar as crianças para correr. Eles também têm o direito de ganhar o pão deles. Já no frio eles não vêm. Só fica nóis que entende mais do ramo”. (Gilberto).  

Os que “entendem mais do ramo” são aqueles que se dedicam prioritária ou exclusivamente ao comércio de iscas. Como é o caso do Gilberto.  

Gilberto Aparecido Vitorino, no ramo há 14 anos. Sempre aqui no Riacho. Nasceu no Ipiranga e criou-se em S. Bernardo.  

“Depois que eu saí da Volks nunca mais quis firma. Pra mim é melhor: ganho mais, trabalho menos. É mais divertido e a gente faz o que quiser da vida. Tem uns colegas meus que trabalham junto com nós  aqui. Mas se a turma pensasse: Vamo trabalha, não rouba, seria a melhor coisa que tem nessa terra. Porque a gente sabe ganhar dinheiro nessa terra. E artigo de pesca dá pra nós”.  

No dia 24.4, dia de muita garoa e vento até às 9h, Gilberto e sua turma já haviam vendido, em média 45 copos de minhoca e bigato, a Cr$ 200,00. “Até à tarde eu acabo todo o material“.  

Acredita-se que na base de 70 pessoas vendam iscas no Riacho. Sobretudo nos fins de semana ensolarados. Mas a estimativa é complexa dada a eventualidade da atuação de muitos deles. Destes, muitos encontram na venda eventual de iscas a solução para um estrangulamento no orçamento.  

“Eu vejo muita gente passando fome aqui. Mas ele vê nós trabaiando, e vai dá um jeito. Eu mesmo falo: ”Vai rancá um pouquinho de minhoca e vem vender pra você ganhá seu dinheirinho procê levá pra casa. Eu acho bonito isso aí”. (Gilberto)  

Chegam a atuar na frente dos estabelecimentos especializados (que por sua vez também passaram a colocar bancas na calçada).  

– Eles não falam nada?  

– Não podem falar nada. Já tentaram uma vez tirar nós daqui, com os fiscais de S. Bernardo. Só que não conseguiram nada. Porque os caras precisam do dinheiro. Um pouquinho que ranca da loja não vai fazê falta pra eles não. Eles são rico; mas a gente precisa mais do que eles. Agora, o dia que a Prefeitura chegá e tirá nós, nós vai ter que sair. Mas nós vai tê que luta pra eles não tirá nós daqui. Porque nós precisa desse serviço. As firmas não táo pega no ninguém. Então é um ramo melhor do que ficar roubando por aí. Eu sou um pai de família, tenho 3 filhos, sempre cuidei deles nesses 14 anos com as minhas iscas.  

Mas, se de um lado ninguém manda ou controla um espaço de trabalho que dá pra todo mundo, por outro existe uma certa organização, certa demarcação “espontânea”.  

E que todos respeitam. E que faz funcionar. É de se pensar, numa primeira abordagem, que numa atividade competitiva, como o comércio e numa tão grande concentração de oferta/demanda que os conflitos pudessem ser frequentes. Mas funciona. No dia 20.4 presenciamos um início de briga. Um “novato” chegou, pela primeira vez, e inadvertida ou’ propositalmente, colocou-se no ponto de um dos vendedores ali estabelecidos há algum tempo. Advertido por todos de que não podia se instalar ali, naquele exato ponto, encrespou-se e partiu prá cima do ”veterano”. Partiu não; tentou partir. Porque ninguém deixou. No dia seguinte, ele também já estava estabelecido a uns 15 m do ponto que havia gerado o conflito.  

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