Cultura de Paz – Orante

Pára o mundo, que eu estou contemplando a face divina! (1)” 

Para o cantador Décio Marques, orante de primeira, 
qu´ inda ontem, violando e cantando, seguiu em cantorias rumo às estrelas. 

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Se não falas, vou encher meu coração 

com o teu silêncio, e aguentá-lo. 

Ficarei quieto, esperando, como a noite 

em sua vigília estrelada, com a cabeça 

pacientemente inclinada. 

A manhã certamente virá, a 

escuridão se dissipará e a tua voz 

se derramará em torrentes douradas 

por todo o céu. (2) 

Reprodução de um mural da Catacumba de Priscila 

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Orante 3 

Vale do Paraíba 

Bandeireiro da Folia de Santos Reis

Então as tuas palavras voarão em canções 

de cada ninho dos meus pássaros, 

e as tuas melodias brotarão em flores 

por todos os recantos da minha floresta. 

Tagore 

Esta é a quinta vez que o universo das Folias de Reis inspiram a comunicação visual do RSP. Desta vez não pelo tema de Reis propriamente dito, mas pelo foco da comunicação do ano: os Orantes (conferir adiante). Neste caso, afora o distanciamento enunciado em seu olhar, emblematicamente uma cascata de flores, encimada pelo Divino, como que jorra de sua boca. 

Além disto inspirou também o título da reflexão 

que se segue, tomado emprestado 

à poetisa Adélia Prado, quando em uma longa entrevista a Jean Lauand, a certa altura transborda… 

Então eu acho que o Céu…, quando a gente fala em experiência de mística, da alegria inefável dos santos, isso está no olhar, sabe? 

Então, você chega no Céu: 

– “agora descansa, para o mundo 

que eu vou olhar a Face Divina!”. 

Foto: Reinaldo Meneguin 

Criação: Eros Denardi/ T. Macedo

Em cada uma das edições do Revelando deste ano estamos contemplando o tema dos orantes, tema ímpar, mas muito mais recorrente no universo da cultura tradicional do que se tem atentado até aqui. Neste nosso caso, trata-se de 4 homens (3) flagrados em momentos de grande sintonia, como tantos em tantos momentos durante a convivência no âmbito do Revelando, aqui reflexo ou extensão do que habitualmente acontece no dia a dia das pessoas. Flagrados, sim: no caso dos nossos orantes não houve poses, montagens.  

Ao contrário dos discursos sobre Deus, sobre a divindade, no seio do povo, da vida, busca-se vivenciá-Lo. Vivenciá-la. Experimentá-los (Deus, a divindade). E experimentá-la a tal ponto que a mesma exsuda, torna-se patente. Manifesta-se. 

É o que observamos nestes orantes(3), surpreendidos em alguns desses momentos muito especiais de conexão direta e intensa com o sagrado. Atitudes profundas: estão voltados para dentro de si mesmos, entregues àquilo que os está inflamando.  

Diferentemente de rezar ou de pregar, orar é conectar-se. São atitudes distintas. Em seus momentos de oração, que preferimos chamar de conexão, o homem é corpo e alma integralmente: há nele uma unidade vital, que se expressa, que exsuda. Por isso ele age com a alma e com o corpo ao mesmo tempo. O seu olhar, as suas mãos, a sua palavra/silêncio, o seu gesto, tudo é expressão deste seu estado anímico. Ao contrário das rezas, das recitações, a oração, não diz respeito apenas à alma do homem, mas ao homem todo, que é também corpo: o corpo como expressão viva da alma. Sem necessidade de articulação de palavras, a conexão se dá em silêncio, no recôndito de si mesmo.  

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Neste caso, como se poderia esperar, e se constata, a alma exsuda (4), diferentemente da pregação, em que se fala, se discursa sobre Deus, na tentativa de convencer, de influenciar o outro. Um exercício de proselitismo. 

E aqui se aplica redondamente o pensamento de Martin Buber, brilhantemente condensado: 

 Se crer em Deus significa poder falar dele na terceira pessoa, então não creio em Deus. 

Se acreditar nele significa poder falar com Ele, então eu creio em Deus. 

No universo da cultura popular/tradicional (também poderíamos dizê-lo no plural) constata-se esta importância do sagrado, das relações com o sagrado, em que o homem se coloca de forma integral, sem cisões: estabelece um trânsito contínuo entre o quotidiano e o extraordinário, entre o que é tangível e o que espreita no domínio do intangível, entre o sagrado e o profano. 

Sem preocupações com suas canonicidades, assim acontecem em tempos exatos batuques e jongos para celebrar São Benedito; samba de bumbo para festejar Bom Jesus no médio Tietê; samba lenço para louvar São Benedito na grande São Paulo; jornadas para Santos Reis e para o Divino com suas foliascongosmoçambiques e rodas de São Gonçalo em louvação, agradecimento ou propiciação. Tão presentes e tão fortes que têm merecido a atenção de tantos pesquisadores, de diversas áreas de reflexão, resultando estudos vários no âmbito acadêmico.  

Tem sido assim com Carlos Rodrigues Brandão e, entre outros estudos seus, o importante Sacerdotes da viola e Alfredo Bosi em seu Dialética da Colonização (Litanias caboclas), antecedidos por Mário de Andrade, Rossini Tavares de Lima, Oswaldo Elias Xidieh, entre tantos, e coetâneos a tantos outros. 

Desnecessário dizer que esta relação com o sagrado é espontânea nas culturas populares, ainda que seus referenciais históricos, via de regra, tenham se perdido ou passam despercebidos.  

Esquecidos da origem divina, nossa e deste nosso mundo, imersos em uma visão rotineira do mesmo, ante uma situação inesperada, que nos toma de assalto neste nosso embotamento, temos o hábito arraigado de exclamar em alto e bom som Meu Deus!, ou Minha Nossa!, Meu Pai!!…e assim por diante. Por vezes tudo é dito num som exclamado, mas não articulado. 

Mas o que tudo isto quer dizer? 

Dentre aqueles que buscam apontar o extraordinário que se imiscui nos nossos quotidianos, o filósofo Jean Lauand em um importante ensaio (5), uma das fontes de inspiração para este nosso texto, estabelece a trajetória do sentido e uso da expressão olé !!!, tão complexa e profunda quanto profundamente banalizada. Mostra-nos ele o sentido denso do grito “olé!”, que se tornou tão prosaico, aplicado ao espetáculo do futebol, originado pelo assalto de um belo inesperado numa partida de futebol, em 1958 no México:  
a cada incrível drible do incrível Garrincha (o das pernas tortas, que não era para ser futebolista), os
torcedores mexicanos gritavam olé!, como se estivessem numa tourada.

Herdamos da Península Ibérica, invadida pelos árabes/muçulmanos (estes os campeões de invocações a Deus ante a fortuna ou um infortúnio), e por eles dominada por 750 anos, este hábito de invocar a autoridade de Deus para atestar um fato aparentemente incrível. De tudo aquilo que é incrível.  
Ante uma espantosa beleza, um fato muito intenso, que os surpreende em suas rotinas, é a Deus que celebram: Allah!, Ya AllahSmallah! (Deus! Ó Deus! Em nome de Deus!).  
E tudo pode ser resumido, como nos mostra Lauand, numa simples expressão- olé! Interjeição de admiração e espanto, misto de prece e de louvor:  
naturalmente, instintivamente, o homem tende a evocar Deus quando a beleza inesperada ou
intensa arranca-o do embotamento quotidiano!  

Daí que não chegue a surpreender que o significado etimológico da espanholíssima palavra olé!, seja um recurso a Deus: olé! (do árabe Wa-(a)llah – Por Deus!), é exclamação de entusiasmo ante algo surpreendente, de certo modo misterioso, mas real, como a beleza de um ousado lance de tourada, de um golaço inusitado ou de um taconeo no flamenco.   
E em extensão as olas (ondas), materializações destes verdadeiros estados de olééé, ainda que os torcedores nos estádios de futebol no Brasil, ou nas arenas mexicanas ou madrilenas, não se lembrem ou não se deem conta da invocação ou saudação a Deus contida no ato. O mesmo estado que permeia uma quantidade de expressões correlatas e corriqueiras, sempre a querer dizer: 
“Meu Deus! Quanta beleza…”  

Voltando ao âmbito de nossas culturas populares, a relação com o sagrado, relação espontânea, é pertinente. Entretanto, temos cultivado uma forma de abordar a religiosidade popular, insistentemente tomada tão somente em seus aspectos formais ou de simples persistência simbólica ou sobrevivências históricas. Ou mesmo por categorias estanques em que a maioria das práticas são enfeixadas em rótulos repisados: crendices, animismo, fetichismo. Estas abordagens dão conta de suas facetas mais evidentes, de seu verniz, para usar uma metáfora bem corriqueira.  

Por isso, muito mais que falar das litanias caboclas, das rezas, estamos aqui chamando atenção para um aspecto observável, mas pouco considerado, nas relações populares com o sagrado. Relações que ultrapassam o meramente formal das rezas e outras representações do universo místico/religioso popular. Estamos aqui a abordá-las por seus valores intrínsecos, pelos vieses da exsudação, que prescinde e é diferente de verbalização: as seringueiras e outras árvores exsudam seu látex, as flores seus perfumes, os corpos seus odores.  

Os humanos também exsudam aquilo de que seus corações estão cheios. Momentos de puro encantamento, não contemplados ou reconhecidos neste mundo desencantado, o atributo com que Max Weber qualificou o universo da racionalidade burguesa. 

Uma prova cabal de que o ser humano, qualquer um, tem a possibilidade de fazer uma certa experiência do Absoluto que o transcende, momentos de graça, uma relação tácita com algo, uma força superior que transcende. A conexão é pessoal, experiência de uma verdadeira epifania(6), bem diferente da busca de convencimento do outro, de doutrinação. 

A oração não é algo formal, mas um estado de conexão com o sagrado (de glorificação, ação de graças, súplica, pedido de perdão ou simples contemplação). E, se este estado é patente, como no caso de nossos orantes, não importando seu ‘conteúdo’, nos ajuda a entender que Deus está presente na realidade: ao contemplá-los é possível perceber a presença de Deus.  

Assim é que a oração é fruto espontâneo da consciência de um relacionamento pessoal onde não há espaço para o monólogo: quem ora, não apenas fala, mas também ouve, em um diálogo em que os orantes aprofundam sua comunhão com Deus em linguagem silenciosa.  

Nas catacumbas(7) ficou preservado um grande número de ‘representações’ estéticas destes momentos de verdadeiros êxtases.  

Orante de la catacumba de los Giordani

Nas edições de 2012, estamos contemplando em nosso material comunicacional orantes (8), pessoas flagradas não em uma pose, mas em momentos de grande conexão, expressos em suas faces, em seus olhares, reflexos da intensidade de suas comunhões em seus ‘lugares secretos’. Não necessariamente um espaço físico: pode-se estar em público, mas recolhido. Por breve momento pode-se estar a sós, como se todas as portas estivessem fechadas para as coisas que nos cercam sem formalidades, em um diálogo íntimo com Deus. 

Orante de la catacumba de los Giordani 

Assim estão eles em suas modéstias como que a nos dizer: Pára o mundo que eu estou contemplando a face de Deus… 

Histórica e esteticamente designavam-se por orantes as representações de homens ou mulheres, iconografías executadas nas catacumbas, e preservadas muitas delas. Foram fixados postados de pé, com os braços estendidos lateralmente, flexionados na altura dos cotovelos, com as mãos a uma tal altura que não costuma superar a linha horizontal dos ombros. Posição litúrgica que os cristãos, no início do cristianismo (entre o I e o III séculos) costumeiramente adotavam em seus momentos de oração. E assim foram retratados, esquematicamente, em poses. 

Assim, como já expresso em versões anteriores, temos expectativa, de que o Revelando São Paulo possa tornar-se, cada vez mais, um convite ao desenvolvimento e de uma comunidade de espíritos transculturais, transnacionais, transpessoais, transdisciplinares, transreligiosos, com visão completamente aberta, capaz de estabelecer um espaço para o diálogo pleno e franco entre todas as pessoas, entre suas práticas e vivências. Um convite a uma nova forma de relacionamento. Ao cultivo e difusão de uma cultura de paz, bem como para o reencantamento do mundo. Uma engrenagem cada vez mais viva, que ao mover- se ‘redondamente’, possa mobilizar cada vez mais pessoas, sustentando em seu mover-se relações sinérgicas entre nossa cultura ancestral e a cultura globalizada.  

Toninho Macedo, inverno 2012 

1 – Título tomado emprestado à poetisa Adélia Prado, quando em uma longa entrevista a Jean Lauand, a certa altura… Então eu acho que o Céu…, quando a gente fala em experiência de mística, da alegria inefável dos santos, isso está no olhar, sabe? Então, você chega no Céu: “agora descansa, pára o mundo que eu vou olhar a face divina!”.         

2- Se não falas, vou encher o meu coração
com o teu silêncio, e aguentá-lo. 
Ficarei quieto, esperando, como a noite  
em sua vigília estrelada, com a cabeça 
pacientemente inclinada. 
A manhã certamente virá, 
 a escuridão se dissipará e a tua voz 
se derramará em torrentes douradas  
por todo o céu. 
Então as tuas palavras voarão em canções
de cada ninho dos meus pássaros, 
e as tuas melodias brotarão em flores por  
todos os recantos da minha floresta. 
Rabíndranáth Tagore
Poeta indiano de verve mística, Prêmio Nobel de Literatura 

3- Nas 4 edições deste ano colocamos foco numa realidade bastante frequente: a relação integral do homem com o sagrado, relação ao mesmo tempo que frequente, especial. Especial, ainda, o fato de termos escolhido 4 homens, orantes, da mesma forma que anteriormente, em 2010, escolhemos 4 mulheres, madonas e rainhas. Homens flagrados em momentos…  

4- Exsudar é expelir em forma de gotas, sair em forma de gotículas (os suores, por exemplo).  

Exsudação é termo usado tecnicamente em vários segmentos de atividades (na Medicina, na Psicologia, na Biologia, na construção civil,…) para designar o fenômeno físico da migração de líquidos em geral, de origem animal ou vegetal, quando atravessam poros e se depositam nas superfícies.  

Aqui tomamos o termo em sentido figurado. 

5 – Oléééé!! – Deus, a beleza e a Arte, Jean Lauand – Prof. Titular – FEUSP http://www.hottopos.com/mp2/allah.htm  

6- Epifania designa aparição, manifestação da essência divina. Em sentido filosófico designa uma súbita e profunda sensação de realização ou compreensão da essência de algo. O termo é aplicado quando um pensamento inspirado e iluminante, algo considerado único e inspirador, acontece de tal forma que parece ser divino em natureza. 

Epifania também possui o significado de manifestação ou aparição.  

7- As Catacumbas foram cemitérios escavados em alguns pontos periféricos da Roma antiga, durante o período das grandes perseguições aos cristãos. Eram também locais de reunião e refúgio. Há também exemplares em Paris e na Espanha, e são hoje locais de visitação turística e peregrinação. Para construí-las, os cristãos escolhiam terrenos apropriados ou aproveitavam as escavações deixadas pela exploração das jazidas de pozzolana, que é uma rocha vulcânica porosa, que se triturava para obter uma espécie de cimento, utilizado no preparo da argamassa de construção. Rafael Sanz Carrera –  

http://rsanzcarrera2.wordpress.com/2008/07/25/los-o-las-orantes/ 

8- Na arqueologia Orantes foi o nome por que passaram a ser designados os baixos relevos que, em geral, se encontram nas catacumbas romanas, registros de pessoas em momento ou mesmo em estado de oração, geralmente com os braços estendidos. São representações humanas realizadas durante os 3 primeiros séculos da era cristã. 

http://rsanzcarrera2.files.wordpress.com/2008/07/orante1.jpg?w=210&h=300 Orante na catacumba (1  de Priscila http://rsanzcarrera2.files.wordpress.com/2008/07/catacumbas-de-santa-domitila-el-orante.jpg?w=300&h=191 Orante de la catacumba de santa Domitila  Los tres orantes en el horno. Roma. Catacumba de Priscila. Cubiculo dela Velatio Os tres orantes no forno.  Roma. Catacumba de Priscila. Cubículo da Velatio  

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